Pra que tanto?

Já fez parte de minhas ambições ganhar dinheiro o bastante para viver folgadamente quando de mais idade.

Aqui cheguei pensando unicamente em trabalhar. E assim o fazia, diuturnamente, operando nos três hospitais.

Foram vinte anos de um mourejar constante, solitário, operando com a ajuda de um enfermeiro, por mim treinado, aprendendo a não errar tanto, embora seja quase impossível não cometer equívocos. Fui o pioneiro na minha especialidade nesta cidade que me acolheu tão bem.

Minhas mãos tremiam ao empunhar a lâmina afiada do bisturi. Com a experiência chegando aprendi, graças à destreza acumulada, que apenas com o tempo a gente acaba se acostumando.

Noites indormidas faziam parte da minha rotina. Ainda não haviam inventado o tal telefone andejo. O telefone de cabeceira tilintava me acordando no melhor do sono. E tinha de retornar ao hospital para atender às urgências, as sondas entupidas por coágulos que enchiam a bexiga, e felizmente tudo dava certo. E o paciente recebia alta depois de alguns dias de internação. E como era gostoso, até nos dias de hoje desfruto do mesmo prazer, de constatar, pelo sorriso na face, deste ou daqueloutro enfermo, ao ser curado de sua patologia que o fazia sofrer.

Os dias se repetiam. Do consultório para o hospital, dos ambulatórios pra casa, sempre caminhando, madrugão que sempre fui, a medicina me encantava. Por vezes alguma contrariedade quase me fazia desistir. Mas eram poucas frente às alegrias que esta profissão tão importante, embora nos dias de agora médicos perdessem a aura de heróis que conquistaram no desenrolar dos anos, não por culpa de nós mesmos, e sim por razões adversas a nossa vontade.

O tempo passa. A idade vem chegando. A passos lépidos como um coelho correndo.

Nos dias de agora as minhas pretensões mudaram. Não tenho tanta sofreguidão por amealhar fortuna. Dou-me feliz por aquilo que conquistei.

Pra que tanta correria se a vida um dia se despede? Pra que tanto empenho em ganhar dinheiro, se ele, embora seja um mal necessário, perde em muito para a felicidade que pode escapar por entre os dedos, assim que as enfermidades tomam conta da gente.

Pra que tanto pensar em perder noites de sono, se a vida dura pouco, e, quando acordamos percebemos que tudo ao nosso redor se reduz a um amontoado de sonhos desfeitos, e a gente perde tanto tempo no trabalho, que, ao menor descuido lá vem a morte, carranquenta, privando-nos do bem maior qual seja viver em intensidade plena.

Pra que tanto tentar conquistar o mundo, se ele não pertence a nós apenas, e sim a uma multidão de gente que pensa como a gente, e, quando menos se espera acaba tudo numa cova escura.

Pra que tanto desamor neste mundo desigual, se quando tudo terminar vamos todos pro mesmo lugar, e nada mais nos resta senão um amontoado de ossos e pelos que duram mais que as vísceras ocas, carcomidas pelos germens da terra, e uma podridão infinita que dela exala uma fedentina enorme, qual carniça disputada pelos urubus.

Pra que tanta ambição, se não levamos nada desta vida, nem ao menos o caixão vai com a gente, madeira de má qualidade que se desfaz com o tempo.

Pra que tanto pensar em trabalhar apenas, se ao fim vamos ser lembrados como mais um, pobres coitados, destituídos de vaidade, perdida a mocidade, como seremos lembrados?

Já pensei tanto, no começo de minha vida adulta, ao constituir família, o que deixar como legado aos nossos filhos?  Fortuna eu não fiz. Não deixarei polpudas contas num banco qualquer. Bens, eles serão vendidos quando precisarem.

Pra que tanto? Pergunto. Pra nada. Vivi até nos dias de agora unicamente pensando no trabalho.

Penso ter chegado a hora de pensar em mim.

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