Nestes tempos conturbados torna-se quase impossível encontrar a serenidade.
Todos nós vivemos a azáfama do cotidiano. A tranquilidade tão almejada parece longe do que pretendemos. Um turbilhão de pensamentos assaltam-nos a cada momento.
Como pagar as contas que vencem a cada dia? Como enfrentar serenamente a violência que campeia nas grandes cidades? Como viver sem pensar no que vai ser amanhã? Como antever quando vai terminar esta pandemia?
Certo que amanhã deveria uma interrogação. Pensar unicamente no presente é a questão que deveria ser a bola da vez. Mas, em realidade, o passado me inebria. Como viver o presente esquecendo-nos daqueles que nos foram caros? Como nos desvencilharmos do passado sabendo que ele se foi. E deixou marcas ainda presentes em nosso âmago. Saudades dos que se foram. Amarguras que ainda existem.
Conheço um senhor, bem andado em anos, Seu Benedito, pessoa boa, cujo único defeito, segundo o próprio me disse, durante uma consulta, anos atrás, era bondade pura. Pena que ele passou ao infinito, e hoje ele mora no céu, distribuindo bondade aos anjinhos celestiais.
Ainda me lembro dele. Aqui comparecia ano após anos, para ver como estava a sua próstata. Pedia um desconto no preço da consulta. No que eu atendia de pronto.
Naquele dia, era verão, a temperatura oscilava entre trinta e mais graus, Seu Benedito aqui compareceu. Era final de tarde.
Suava em bicas. Terminara a panha de café. Era esse o seu oficio. Nascido e crescido na roça, num pedacinho de terra herdado do pai, ele empobreceu de repente.
Só lhe restava uma penca de filhos para tratar. E como dar cabo do recado? Umas duas dúzias de vacas não eram suficientes para tirar o próprio sustento. E o que dizer da prole?
Daí então passou a colher café para um fazendeiro rico. Mesmo assim o que recebia pelo trabalho duro não suficiente para prover a casa. Fazia bicos como retireiro. O que lhe engordava a renda em alguns trocados.
Enfim a juventude lhe foi deixada pra trás. Envelheceu. Felizmente a saúde ainda lhe cortejava.
Durante aquela consulta ele me confidenciou o que achava da vida. Em absoluto não se queixava da penúria por que passava.
E como ainda sinto saudades dele. O seu sorriso me encantava. Às vezes não lhe cobrava a consulta. Mas ele prometia pagar na próxima vez.
Faz dois anos. Se tanto. Foi a derradeira vez que o vi.
Seu Benedito chegou à consulta com ares de que estava no final da vida. Olheiras profundas sulcavam-lhe a face. Magro sempre foi. Mas, do jeito que suas costelas apareciam, quase podendo ver-lhe as entranhas, era uma magreza doentia.
Não foi preciso fazer exames para comprovar-lhe um câncer na próstata. Em estágio avançado. Bom que se diga.
Ao final do exame, que pouco durou, prescrevi-lhe alguns fármacos para aliviar-lhe as dores.
E ele saiu da consulta dizendo assim: “doutor, encontrei a minha paz. Bem sei que estou prestes ao final da vida. Vou morrer não sei a hora. A minha chegou. Morro feliz. Sempre fiz o que quis. Não me faltou nada. O pouco que conquistei foi o bastante. Deixo como herança apenas a minha bondade. Espero deixar este legado aos meus filhos”.
Soube notícias do Seu Benedito um mês depois. Ele foi sepultado no mesmo local de nascido. Debaixo de uma jabuticabeira que a cada ano produz frutos doces como ele só.