Ontem, pela manhã, estive assistindo a festa de encerramento das Olimpíadas de Tóquio.
Foi um evento magnifico. Que país maravilhoso, por mim desconhecido, em vivo, já que não tive ainda a oportunidade de ali visitar, que gente amável e hospitaleira, educada, recebeu o mundo inteiro naquele pequeno país, uma ilha em pleno oceano pacifico, tão longe de nós, brasileiros, tanto em distância quanto em desenvolvimento, dando-nos o exemplo de como deveria ser num futuro, tomara que não tão distante, a nossa realidade, ainda longe da qualidade, que tanto almejamos para o nosso Brasil tão rico e ao mesmo tempo tão pobre.
O Brasil não fez feio desta vez. Fomos detentores de medalhas em várias modalidades. Ocupamos o décimo segundo lugar dentre todos.
A presença feminina nunca foi tão marcante. Elas nos deram o exemplo alvissareiro de que as mulheres mais e mais ocupam um papel fundamental não apenas no cuidado do lar bem como em todas as atividades neste mundo que deveria ser igual para todos. No entanto, não tanto.
A presença no pódio foi resultado de esforços e dedicação não só dos atletas bem como daqueles que lhes deram suporte. Penso que nossos governantes mais uma vez ficaram omissos. E o apoio mais uma vez tenha faltado em inúmeros esportes.
Durante estes dezenove dias que durou a efeméride tenho pensado nos heróis de verdade.
Quem de fato é merecedor de medalhas? Quem em verdade deveria ser chamado de campeão?
Aquele cidadão que ganha seu pão empurrando um carrinho cheio de tranqueiras pelas ruas da cidade. Aqueles garis que coletam o lixo. Aqueles professores que ganham um salário de fome. Os pais de família que se desdobram em muitos empregos. Que por vezes falta. O homem do campo que vive dependendo do clima. Que acorda ao nascer do sol e não tem hora de terminar a labuta.
Ainda considero candidato a medalhas aqueles profissionais de saúde que cuidam da vida de outrem sem pensar nas suas. Verdadeiros heróis desconhecidos pela mídia.
Deveriam ser chamados de campeões os trabalhadores braçais. As domésticas que cuidam das casas alheias sem tempo de cuidar das próprias.
Aqueles pais, como o meu, que foi um exemplo de dignidade e amor ao trabalho, que nunca se aposentou em verdade, herói sem nunca ter recebido medalhas, que morreu deixando no seu rastro uma trilha a ser seguida, um valor ainda maior que ouro, prata, ou bronze.
Devem ser chamados de campeões todos aqueles que enfrentam filas imensas à porta dos bancos, nesta pandemia interminável, para receber uns caraminguados, que mal dá para comprar o necessário para levar pra casa, e suprir as necessidades de seus filhos, que esperam de olhinhos abertos um futuro melhor.
Deveriam ainda ser chamados de campeões quem recebe o salário mínimo, tem de pagar aluguel, tomar duas ou mais conduções para chegar ao trabalho, e ainda corre o risco de ficar desempregado, nestas circunstâncias adversas que estamos atravessando.
Nada contra aqueles ditos campeões. Os medalhistas olímpicos em verdade devem ser reverenciados.
No entanto, nunca se esqueçam de outros heróis. Eles, apesar de anônimos, também são campeões. Cada um a sua maneira. Varrendo as ruas. Juntando lixo. Vivendo como podem, até quando puderem.
Eles, a exemplo dos campeões olímpicos, também são campeões esquecidos, heróis perdidos no esquecimento, o nosso povo, sobretudo os menos aquinhoados, que vivem a margem de uma sociedade tão díspare. Que privilegia os ricos em detrimento de quem nada tem.