Falar demais por vezes cansa. De vez em quando prefiro escutar o murmúrio do silêncio.
Principalmente quando numa multidão de gente. Todas falando pelos cotovelos.
Algumas palavras soam mal aos meus ouvidos. Aquelas que desferem palavrões ou xingos a quem não se deve. Impropérios da mesma maneira fazem-me pensar em mudar de canto. A eles prefiro o canto dos rouxinóis, o matraquear das maritacas, ou até mesmo a algaravia dos pardais.
Quase sempre o silêncio faz falta. O zumbido das estrelas mudas. A solidão das matas. Ou até mesmo o berrar das vacas. Ou o ronronar de um gato prestes a subir na parede, temendo a repreensão do seu dono, por alguma falha cometida.
De vez em quando não me sinto a vontade na azáfama da cidade. Aquele burburinho contínuo faz-me doer os ouvidos. Daí a minha predileção a usar fones de ouvido ao caminhar pelas ruas, em direção à academia pra onde sempre vou ao cair das tardes.
Conheço um falastrão de primeira. Ele conversa e não se faz ouvir desde quando o conheço.
Mal sei qual o seu nome. E ele é assaz conhecido por toda a cidade. Um dos seus apelidos é Esvazia Banco. Quando ele se assenta, num banco da praça, quem ali está costuma sair de fininho. Boa prosa ele não é. Costuma vangloriar-se de seus feitos todos inverdades mal ditas.
De vez em quando passo por ele. Tento mudar de passeio. Por causa de uma amizade estremecida ele me considera ainda um amigo.
O Esvazia Banco não toma jeito. Falastrão contumaz, palrador mentiroso, quem o vê proseando inverdades faz mau juízo daquela pessoa. Diz ele ter uma mina de esmeralda verdadeira ao norte do país. Outra de ouro puro noutro estado da nação. E que é rico desde quando nascido. Herdou dos pais, ainda vivos, uma jazida de diamantes pertinho de onde mora. A casa onde nasceu tem três andares, dez suítes, duas piscinas bordadas a ouro, e só o apartamento do seu cachorro oferece três quartos defronte pro mar. Uma praia de uso próprio, infestada de lagostas, que usa pra degustar.
E a lancha que usa pra navegar? Só ela tem dois decks, duas piscinas que nunca foram usadas, e um helicóptero que custou meio milhão de libras esterlinas. É só come caviar, foie gras, mesmo assim a contra gosto. Detesta que o chamem de milionário. Prefere o tratamento de bi. Como se fosse um Onassis melhor que o próprio.
Ainda ontem o vi. Ele caminhava por uma das ruas da cidade. Evitei encontrar-me com ele.
Apesar das minhas intenções não tive como evitar-lhe a pessoa. Conhecia, de antemão, sua arrogância de boquirrota.
Mas, devido a um vacilo meu, acabei por me deparar com o tal. Ele mal me olhou. Tentou evitar o nosso encontro. Estranhei a relutância demonstrada pelo fulano. O Esvazia Banco da mesma forma tentou mudar de passeio.
Naquele breve encontro, quase ao final da tarde, ele ficou mudo. Mal me olhou de frente. Passamos um ao lado do outro. Mal ouvi seu cumprimento. Estranhei-lhe o comportamento.
Dias depois, por um amigo comum, fui informado que o Esvazia Banco havia engolido a língua, durante um jantar festivo. A partir de então nunca mais ouviu aquela pessoa falante contar vantagens. Seria a solução para os mentirosos de plantão. Melhor guardar a língua dentro da boca. Para não se tornar um boquirroto falastrão. Ou teria outra solução?