Nunca vi coisa igual

Jamais fui de reclamar da vida.

A partir de certa idade contento-me com pouco. Basta-me ter saúde. Acordar ao nascer do sol. Ser feliz na medida do possível. Pra mim a possibilidade sempre me acena ao nascer de um novo dia.

De tempos pra cá as coisas mudaram diametralmente. Parece que o mundo anda virado. Não que a velhice me tenha tornado mais acomodado. Satisfaço-me com o pouco que conquistei. Apraz-se a família que ajudei a formar. Tanto aquela que me antecedeu quanto aqueloutra que na hora do almoço volto a conviver.

Mas hão de concordar comigo. Que tempos difíceis estamos vivendo.

Não vejo a hora de a tal pandemia chegar ao fim. O comércio não ter hora pra voltar a abrir as portas. Sem o incômodo de ter de respeitar os ditames da sociedade. Não vejo hora de o Brasil voltar a crescer. O desemprego atenuar. As pessoas voltarem a sorrir sem usar aquelas máscaras que nos encobrem a verdadeira identidade.

Desejo, antes de tudo, que a miséria não nos envergonhe tanto como nestes dias fúnebres. Que o número de mortos volte a ser o que era dantes. Que as doenças continuem aquelas de costume. Que não faltem leitos nos hospitais. Que as desigualdades sociais não sejam tão acachapantes.

Que a mídia mude de assunto. Que as noticias sejam as melhores possíveis. Que a corrupção seja em verdade domada. Que não comentem tanto sobre roubos e desvios de verbas públicas.

Como tenho vontade de ver todos vacinados. Que esta doença tenha o seu final.

Nunca vi coisa igual. A renda despencou pra todo mundo. Os preços foram às alturas. A inflação galopa como um cavalo bravio. O governo, em todas as esferas, não sabe como fazer para sair do estado em que nos encontramos.

Nunca vi coisa igual. Ruas vazias em contraste com supermercados lotados. Filas à porta dos bancos. Famílias inteiras passando necessidades. Gente miserável mendigando as sobras. Nunca vi tanta gente à espera de dias melhores.

Parece que chegamos ao fim do mundo. E que mundo é este? Tão dispare. Onde a riqueza é tão mal distribuída. Onde ricos nunca foram tão abastados. Onde a pobreza viceja em cada esquina.

Nunca assisti a tamanho infortúnio. Hospitais lotados. Mortes sendo anunciadas dia após dia.

Até quando? Uma vez me indago.

Ai que saudades dos tempos dantanho. Quando o assunto era outro. Existiam doenças.  Mas facilmente sanáveis com medicamentos simples. Quando uma gripe era coisa banal. Mas não ceifava vidas como tem acontecido.

Confesso nunca ter passado por coisas semelhantes. Não vivi o período da febre amarela. Muito menos outros tempos malignos como temos passado.

Acordo sempre em sobressalto. Quase não tenho dormido. O que será o dia de amanhã?

Não sei. Mal sei o que aconteceu no dia de ontem.  Tomara o amanhã seja melhor ainda. Pois nunca vi coisa igual…

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