Quem sabe um dia melhora?

O frio andava insistente nas bandas da roça do amigo Crispim.

O dia amanheceu gelado. As vacas mal se levantavam da beira do curral.

A pastaria amanheceu tinta de branco. A geada lambeu com sua língua fria tudo ao derredor.

Mal se via um palmo adiante do nariz. Uma cerração nevoenta tintava tudo em cinza. As águas de um riachinho que passava a frente da casa não tinham coragem de correr. Por cima dele se formou uma placa de gelo duro, por onde se podia caminhar. Por baixo uns lambarizinhos de rabo vermelho mal davam conta de respirar.

Era um cenário digno de figurar no polo norte. Só não se viam pinguins; muito menos esquimós.

Naquela manhã gelada o compadre Crispim acordou sem vontade de se levantar. Abriu a janela e cadê o sol? Por certo ele estava se aquecendo, criando coragem de sair de entre as nuvens.

Aquele dia gelado, era inverno em seu começo, agosto mal começou, o frio intenso enregelou a pastaria, embranquecendo o cafezal, antevendo um ano impropicio a produção no ano seguinte.

Até mesmo a roça de milho não foi adiante. As espiguinhas nanicas mal pendoavam naqueles pezinhos de milho pálidos de frio.

Vaca não gosta de frio. Dizia ele. A produção leiteira foi abaixo. Dos quase mil litros de leite, produzidos a cada dia, derriçou para menos de duzentos. E a renda caiu para quase nada. Nem o preço da ração dava pra pagar.

Não bastante tanto infortúnio ainda o velho Crispim adoeceu. E ele sempre teve saúde a emprestar aos compadres. E ele não se considerava velho. Quando o chamei de idoso ele me respondeu que estava no ápice da mocidade experiente. E que gostaria de viver até os cem.

Naquela madrugada gelada, quando estive com ele, era quase meio dia, de volta à cidade, encontrei-o assentado àquele mesmo banquinho tosco. À espera de o frio passar.

Acabei parando um cadiquinho. Há tempos não via o amigo.

Comentei sobre a crise por que estávamos atravessando. Sobre a tal pandemia que parecia não ter fim.

Os preços em alta não faltavam em nossa conversa. A miséria nunca esteve tão espalhada pelos quatro cantos do mundo. Na cidade pessoas dormiam ao relento. O contingente de desempregados nunca esteve tão alto.

Com a calma que Deus lhe deu, Crispim, pitando um paiero apagado, respondeu aos meus queixumes com a tranquilidade costumeira.

“Quer mesmo saber? Já passei por tempos piores. Ainda me lembro de outros invernos. Eram tão ou mais frios que este que atravessamos. As geadas estragavam as lavouras. Não sei quantas reses perdi. E aqui estou. Ainda rígido e forte o bastante para espertar tempos melhores. Ainda tem dúvidas se as coisas irão melhorar? Eu não as tenho mais. Pior não pode estar. Confie, trabalhe, sonhe, não perca tempo em pessimismos. Olhe pro céu. Agradeça por ainda estar vivo. Um dia, com certeza, iremos nos lembrar de tudo que passou. Tudo passa. não existe desgraça maior que se entregar antes de acontecer o pior”.

Agora não tenho dúvidas que o velho Crispim tinha razão. Não há mal que não se cure. Nem ferida que não cicatriza. Tudo tem seu começo, meio e fim.

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