A rua que perdeu a identidade

Aquele documento, onde consta uma fotografia, é assaz importante para identificar o portador.

E muitas vezes é requisitado, naquele momento exato, em qualquer ocasião, seja quando se vai fazer um pedido de emprego, tão em falta nos dias atuais, ou simplesmente quando a gente deseja se apresentar em um balcão qualquer, na intenção de viajar, aí a tal carteira de identidade é substituída pelo passaporte, válido, nestes tempos de pandemia, depois de receber a vacina.

Já as ruas, lugares onde a gente viveu, cresceu, alguns nasceram naquela casa avarandada, ou num sobrado tosco, ou simplesmente num barraco, que já foi demolido pelo tempo, ah!, como o tempo é inclemente com a gente,  deixa-nos marcas indeléveis na face, e a corrói com o passarinhar dos anos, deixa-nos a sós com os nossos desenganos, aquela mesma rua, de tantas lembranças eternas, um dia, futuro se fez presente, acaba mudando tanto, que nem a reconhecemos.

Muitas ruas recebem o nome de flores. Outras de personagens ilustres de nossa história. Já outras simplesmente existem. São ruas invejosas das avenidas. Pois nunca terão a importância delas.

Aquela rua, que daqui se avista pelos fundos, foi  a rua onde cresci. Gostaria de ali ter nascido. No entanto, por circunstâncias alheias a minha vontade, acabei nascendo noutra cidade perto.

Considero aquela mesma rua como se fosse minha. As casas, que ali existiam, quase não se veem mais. Na sua totalidade se transformaram em clinicas. Por serem vizinhas de um velho hospital.

Ainda me lembro dos meninos da Costa Pereira. Eram meus amiguinhos. Naqueles anos doirados. Quando se brincava de pique esconde, de pular amarelinha, de jogar finca e bete, e colecionar bolinhas de gude.

Pra onde foram os meninos da Costa Pereira. E os da rua do Cascalho? Aqueles simpáticos amiguinhos que pegavam bolinhas de tênis naquele velho clube que tem a minha idade. Pra onde vou ao cair das tardes. Para tentar retardar os anos. Tentar esquecer os desenganos. E me manter em forma naquela academia muito bem frequentada.

Aquela mesma rua perdeu a identidade. Agora se transformou em rua das Clinicas. Defronte ao velho hospital.

A casa, que já  foi minha, escombrou-se. Mudou de mãos. Ali não mais vive a querida Rosinha. Minha irmãzinha mais nova. Xodó dos meus pais.

Agora daquela mesma morada só resta um amontoado de entulhos. Ali outra edificação será construída. Mais um prédio novo. Novas clinicas.

Quando passo por aquela rua lembro-me dela como nos velhos anos. Ainda não tinha asfalto. Era calçada de paralelepípedos.

Já hoje ela se cobre de negro. Um asfalto que recobre os velhas pedras duras. E por ela passam carros numa velocidade que me lembra o passarinhar do tempo.

Aquela casa, da rua Costa Pereira, agora não existe mais. Abaixo dela outra casa foi demolida. Era de outro Rodarte. Um tio de rica saudade. O velho Chico, como aconteceu aos meus pais, foi levado a emprestar seus conhecimentos jurídicos a alguma pendência nos céus.

Agora, aquela rua que daqui se avista pelos fundos, pouco a pouco perde a sua identidade.

O que vai ser de nós de agora a alguns anos? Meros espectadores de uma cidade que se transforma. Paulatinamente os velhos anos se vão. Mas, com certeza, deixarão no seu rastro uma saudade imensa.

Deixe uma resposta