Expressão assaz utilizada quando se quer exprimir o momento exato em que a situação não lhe diz respeito. Aliás, nestes tempos bicudos, quando a politiquice abunda e afunda o país, eu mudo de canal. Passo a ler um bom livro, ou tento conciliar o sono. Pena que a noite pra mim não foi feita pra dormir. E sim para repensar a manhã seguinte. O que vai ser da gente a partir de aí?
Estamos em tempos obscuros. Embora amanheçam dias claros. Frios, neste inverno que se anuncia.
A tal pandemia parece está nos seus estertores finais. Embora já tenha visto muito moribundo melhorar. E, minutos depois ele fecha os olhos, despedindo-se da vida. Aparentar melhora dizem que é sinal de que a morte está chegando. Este fato pude comprovar durante a minha vida de médico. Desde quando comecei a trabalhar.
“E eu com isso”. Costuma dizer um amigo. Gente boa pra chuchu. Que vive num pedaço de terra pertinho da minha roça. Fazendo o que aprecia. Acordar ao nascer da aurora. Tirar leite da vaca. Embora vaca não dê leite. Tem de tirar. E como dá trabalho ordenhar a vacada. Tem de ser bem alimentada. Prevenir as doenças. Comuns entre os bovinos. Ruminantes que ruminam de bucho cheio. E estercam o curral. Um valoroso adubo que não só fertiliza o solo. Como também permitem aos canarinhos da terra ciscarem amarelinhos em busca de algum inseto de paladar duvidoso. Iguarias não disputadas no mercado de culinária. Pelo menos entre nós.
Zé da Dona Glória, esposa amada e amantíssima, o que seria do Zé sem a presença dela, pra ele não tem tempo ruim. “Se piorar melhora”. Diz ele. Na sua sabedoria cabocla.
Quando nos cruzamos, ao fim de mais um dia de trabalho, entabulamos um dedal de prosa. Aprendo muito com ele. Que vaca preta produz leite branco não se sabe a razão. Que égua pisca quando está prestes a aceitar a monta do garanhão. Que matel na roça dá no mesmo que motel na cidade. Que cupim morto serve de escada para se fazer amor. Ai da gente se dele ainda saem cupins vivos. É uma correria danada se coçando para sanar as picadas.
Naquele dia de julho fazia um frio danado. O céu se mostrava azulado. Nenhuminha nuvem no alto.
Era por volta da volta das cinco da tarde. Foi quando nos encontramos.
Paramos um cadiquinho na dobra daquela porteira. Zé fica ali esperando os passantes. É muito conhecido nos arrabaldes. Admirado que é por sua sabedoria sem ter frequentado nem um ano na escola.
Com ele comentei sobre a situação vigente. Tive cuidado de não falar complicado.
“Como a situação anda aflitiva? Tudo anda de mal a pior. A crise arreganha os dentes banguelas. Na cidade nada se vê além de filas à porta de bancos. A carestia enlouquece os cidadãos. Os preços caminham na contramão dos salários. Esse tal de auxilio emergencial mal dá para pagar a conta de luz. E quem diz que ele pode suprir a despensa? Mal permite comprar um pacote de arroz. Dois litros de óleo. E uma dúzia de pãezinhos para um cafezinho magro das manhãs”.
Zé da Dona Glória esperou a minha dissertação terminar. Ficou calado como burro deitado à espera de trabalhar.
Como esperava dele alguma admoestação, não usei este palavrão para não assustar, terminei minha alocução com mais esta: “Zé, você não se preocupa com tudo isso? Não lhe toca o coração tanta podriqueira na política nacional”?
Zé me olhou de rabo de olho, meio desconfiado com tanta falação, botou a mão no queixo e comentou: “e eu com isso? Me preocupa sim a saúde das minhas vacas. O preço do leite que anda em baixa. A seca que me apoquenta. A saúde da minha família é o que importa. O resto, que joguem no lixo. Nada mais conta que a saúde que ainda, felizmente, me faz acordar cedo, ver o sol nascer, ganhar o suficiente para viver. O resto, e eu com isso”?
Voltei à cidade sem me preocupar com a calamidade vigente. Não é que o amigo Zé está lotado de razão? E eu com isso? Deixem o pau quebrar. No ano que vem nem meu voto irei comentar…