Que bom se eu soubesse

Tantas e tantas vezes tentei adivinhar, sem olhar o céu, de quantas cores são feitas a pintura do arco-íris. E quem as pintou. Já que nenhum pintor tem uma escada comprida o suficiente para alcançar o céu, e, caso consiga uma escada bastante comprida, corre o risco, de quando começar a pintura, despencar lá de cima. E cair novamente na terra. Esborrando-se como uma pedra ao cair das mãos de uma criança, depois de uma estilingada certeira.

Ah!, se eu soubesse tantas coisas, como são feitas as asas das borboletas, frágeis que são, que vivem tão pouco, pousando de flor em flor.

Se eu pudesse aquilatar, como tirar o sal das águas do mar, resolveria de pronto o problema que nos aflige, a água potável corre o risco de terminar.

Se eu soubesse, não diria a ninguém, como as mães verdadeiras têm tanto carinho pelos filhos que nascem, e nunca os abandonaria ao relento, passando a incumbência de ser mãe a outra qualquer.

Se eu soubesse, novamente repito, como ser alguém, neste país de tantas pessoas desempregadas, sem estudo, sem trabalho, sem empenho, sem esforço nenhum, não passaria a receita a um desocupado qualquer.

Se eu pudesse imaginar, por que tanta desigualdade, por que razão por vezes a maldade impera, quando a fraternidade deveria ser praticada, sem olhar a quem.

Se eu soubesse a resposta, sem perguntar a ninguém, já que não sei tudo, por que motivo as pessoas desdenham de um pedinte qualquer, de mãos estendidas nos imploram um auxilio, e nós, apressados, imersos em nossos próprios problemas, passamos adiante, sem resposta àquele gesto de clemência.

Se eu soubesse a razão, já que não sou desprovido de emoção, por que tantas vezes, apressados nas ruas, não temos tempo de olhar o próximo que passa a nossa frente, inconsequentemente repito, por que não pararmos um instante, escutar seus reclames, e tentar, pelo menos tentar, ajudar a sanar suas interrogações.

Se eu pudesse pelo menos ajudar a uma causa justa, tentar pelo menos dirimir questões, indiferentes as nossas, ai sim, me aproximaria ainda mais dos meus semelhantes, já que todos deveríamos ser iguais, já que as leis não nos tratam assim.

Se eu soubesse, e meu tirocínio fosse o bastante, para pelo menos tentar adiar conflitos, já que não posso resolvê-los por completo. E como gostaria que assim o fosse.

Se eu pudesse, algum dia fazer com que as pessoas fossem mais gentis, e atendessem a todos com a mesma generosidade, a mesma cordialidade, com que um dia me imaginei.

Se eu soubesse até quando iria esta pandemia, depois de mais de dois anos de sofrimento, por certo daria a reposta, num átimo, sem pestanejar, alegremente o faria.

Se eu soubesse até quando a vida estaria presente dentro de mim, não gostaria de saber a reposta.

Prefiro continuar desse jeito. Ignorando o que vai ser do meu futuro. Já que o presente tem sido tão feliz. E meu passado tão generoso. Agradeço a família onde nasci.

 

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