Não restam dúvidas que estamos atravessando tempos difíceis.
A cada hora, a cada minuto, mortes são anunciadas pela televisão. O sofrimento daqueles que perderam entes queridos mais e mais nos comovem. As perdas são lastimáveis. Não digo que as mortes sejam evitáveis. A quem imputar a culpa do que tem acontecido? A ninguém. Creio eu.
Esta pandemia tem assolado o mundo inteiro. Não há como escapar deste convívio funesto.
Devemos sim nos vacinar. Cada um vai ter a sua vez. Mais cedo ou mais tardar tudo vai terminar. Em bora hora, acredito.
Um dia destes passei por um senhor bem vivido. Seu ofício era catador de papéis.
Com um carrinho de mão, feito por ele mesmo, caminhava sem pressa pelas ruas da cidade.
Seu veículo puxado por mãos calejadas estava quase repleto de sucatas. Era um amontoado, sem exageros, maior do que muitos motorizados, que trafegam pelas ruas, exalando um cheiro de gasolina, deixando no seu rastro uma fumaça poluente, que faz mal as nossas narinas, e emporcalham os nossos pulmões.
Aquela cena incomum fez-me parar ao lado daquele senhor. Não tinha pressa. Estava adiantado naquela hora.
Parei por um instante ao lado daquela carroça. Foi no exato momento quando ele estacionava seu veículo puxado a feijão ao lado do meio fio. Felizmente naquela hora temprana não havia muito movimento de autos. E a sua carroça não atravancava o trânsito.
Puxei conversa com aquele simpático senhor. Acredito que ele passava dos muitos anos. Mais velho do que eu. Alguns anos a mais. Se não me engano.
Indaguei-lhe o nome. E qual a sua idade.
Ele me respondeu, com um sorriso a enfeitar-lhe a face, que já ultrapassou mais de oitenta. Seu nome era Manuel. Só. Sem sobre nem segundo nome.
Continuando a nossa agradável prosa ainda lhe perguntei onde morava. E ele me respondeu: “lá longe, por detrás daquela serra, nesta hora coberta por uma névoa densa”.
Dando corda ao nosso entrevero, já que ele foi receptivo aos meus questionamentos, perguntei-lhe ainda se já estava aposentado. Foi quando ele sorriu. E me disse: “nunca deixei de trabalhar. O que ganho de aposentadoria mal dá para o sustento de minha família. São muitas bocas a alimentar”.
“Recolho sucatas das ruas. Tenho uma pequena reciclagem. Além de trabalhar no que gosto ajudo na limpeza da cidade”.
Ainda tivemos tempo de alongar a prosa. Perguntei a ele se era feliz. E ele me respondeu, mais uma vez sorrindo: “e muito. Aprecio as madrugadas na minha simples morada. Não tenho vícios maiores a não ser trabalhar. Não desejo mal as pessoas. Mesmo que elas me olhem de rabo de olho e me injuriem quando atrapalho o tráfego. Quer mesmo saber? Sou feliz com o pouco que tenho. Não tenho ambições maiores. Já conquistei tudo que sonhei”.
Já era quase oito horas quando nos despedimos. Cada um seguiu seu caminho.
Ainda me lembro de suas últimas palavras. Quando a ele comentei sobre o momento trágico em que vivemos.
“Tudo vale a pena”. Parafraseando um grande poeta ele acrescentou: “se a alma não é pequena. O momento atual não vale a angústia em que vivemos. Tudo passa. Até a uva vira passa. Por que nos preocuparmos com esta calamidade. Se preocupação movesse moinhos o meu já estaria parado. E eu não paro. Quando parar, por favor, me ofereçam mais um cadinho de trabalho. Ele me cheira a saúde. E eu ainda a tenho a emprestar aos outros”.
Uma vez ausente daquela fala gostosa percebi que Seu Manuel tinha razão. Nada vale a angústia em que vivemos. Mais vale um dia iluminado a viver em eterna escuridão.