Ele vivia do resto das sobras

Tempos difíceis estes por que passamos.

Tem gente que vende a janta para tomar o café da manhã.

Por todo lado só se veem queixumes.

Como a vida está cara! E olha o preço dos combustíveis. O gás de cozinha anda pela hora da morte. O preço dos gêneros alimentícios sobe a cada dia. E o nosso salário? Mal chega ao meio do mês. O resto a gente compra fiado. E não sabe como pagar as despesas que se amontoam dia após dia. Não bastante tamanha desdita o contingente dos desempregados sobe à estratosfera. O comércio não sabe como se manter de pé. Portas se fecham e os infelizes comerciantes tentam mudar de vida. Pena que por todo lado a ladainha se repete. Até quando? Esta pergunta ainda vai ficar sem resposta. Quem sabe no ano que vem a situação mude pra melhor. Pior do que está não tem como. Só mesmo do outro lado da vida talvez encontremos uma vida mais confortável. Só que não desejo descobrir como há de ser. Será?

Num dia destes, quando descia pela rua, era bem cedo, numa temperatura de fazer esquimó se aquecer ao sol da meia noite, saindo do seu iglu, deparei-me com uma cena que me fez parar.

Um desabrigado, recém-desperto, acabara de deixar sua cama improvisada, em meio a papelões surrados, e alguns cobertores retirados de algum lixão, com olhos sonolentos, entorpecidos pela cachaça, não sei se alguma droga adjuvante, escarafunchava um saco de lixo preto. Dali retirava o seu sustento. Sobras de comida, um resto de pizza deixada a noite passada por alguma família que se fartou daquela iguaria, era o seu café da manhã.

E como ele comia faminto aquelas podriqueiras. Parei assustado com aquela cena inusitada. Era comum observar o acontecido quando se trata de cães vadios. Mas com pessoas, indivíduos como aquele, era incomum ver tanta miséria a solta.

Parei um cadinho para conversar com ele. Ofereci meus préstimos. Só tinha uma nota de cinco reais na carteira.

Ele me olhou assustado. Pensando que seria mais um a intimidá-lo. Ou talvez um policial disfarçado que pudesse levá-lo à cadeia.

Ao revés. Era eu, um passante curioso, escritor que tirava do cotidiano algo que me pudesse inspirar. Naquela hora, quase madrugada, aconteciam cenas como esta. Inusitadas, recheadas de personagens dignos de capítulos de algum livro qualquer.

Seu nome era Diogo. Era egresso de outra cidade. Mais um jovem desempregado. Oriundo de lares desestruturados. De pais desconhecidos. Crescidos a margem de uma sociedade desigual. Onde ricos têm tudo. E os pobres cada vez mais empobrecidos. Perfazendo um fosso social mais e mais acachapante. Neste país tão rico e ao mesmo tempo tão pobre. Tão desigual.

Diogo, depois de se refazer do susto, percebendo que eu não lhe faria mal, contou-me brevemente a sua história.

Disse-me que era de outra cidade. Precisamente oriundo do nordeste. Veio ao sudeste de carona. Sem lenço nem documento. Caminhando contra o vento. Passando necessidades.

Aqui, neste paradeiro por acaso, tentou a sorte fazendo malabares nos semáforos. Não se deu bem. Foi preso por vadiagem. Passou dias e noites entre grades. Sendo liberto depois de uma semana inteira, graças a intercessão de uma juíza que dele se apiedou.

Desde então vive pelas ruas. Dorme aqui e acolá. Não tem onde dormir. Passa as noites ao relento. Como o que lhe dão. Passa fome a maior parte das vezes.

Naquela manhã de inverno, quando o interpelei, condoído de sua situação aflitiva, ele comia o resto das sobras. Como um cão vadio escarafunchava sacos de lixo. Pondo em risco a sua saúde. Nestes tempos de pandemia.

A partir daquela manhã, ao passar pelo mesmo local, o jovem Diogo não estava mais lá. Por onde andaria aquele rapaz? Por certo, oxalá, ele tenha encontrado um lugar mais aprazível. Ninguém merece uma vida como aquela. Nem mesmo um cachorro vadio.

 

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