Era manhã de inverno. O mês de julho teve inicio.
Fazia frio de encobrir as orelhas de gelo. O corpo inteiro ressentia-se daquela friagem intensa.
Mal se via um palmo ao derredor. O sol, pobrezinho, bocejava por debaixo de um cachecol de nuvens densas.
A pastaria amanheceu coberta de uma camada fria de gelo. A geada fez-se de repente. O cafezal, pobre dele, amanheceu todo tinto de branco. Naquele ano ingrato, quando tudo dava errado, tanto na roça quanto na cidade, os prejuízos se amontoavam por todas as partes.
Não bastante a pandemia, que parece não ter fim, a derrocada financeira atazanava o mundo inteiro. Só se viam noticias ruins.
Crise, desemprego, famílias endividadas, mortes anunciadas, hospitais lotados, e a tal vacina que nunca era suficiente, tão logo chegasse, punha todo mundo em polvorosa.
Mal se via a hora de tudo terminar.
Aquela manhã de julho amanheceu frio como nunca se havia visto. O relógio de cabeceira anunciava precisamente cinco e meia.
Era hora de acordar. Seu Gervazio acordou debaixo de um gordo cobertor. Dormiu sem ter pregado os olhos. Mais uma noite em claro.
Preocupado com as vacas, que nesta hora deveriam estar beirando o curral, famintas como sempre estão, já que a pastaria nada oferecia de sustento, aquele capim seco mal servia como leito, aquele sitiante trabalhador, já bem velho o bastante para deixar a juventude anos atrás, levantou-se da cama e foi à cozinha acender o velho fogão a lenha. Ali, nas achas de lenha crepitantes, experimentou um calorzinho aconchegante. Fez um cafezinho. Sorveu de um só gole duas xícaras. Foi o que lhe deu ânimo e calor.
A seguir deixou a casa. Lá fora a temperatura beirava menos de três graus negativos. A sensação térmica era menos. Assim pensou Seu Gervazio.
Quando se preparava para a primeira ordenha, aconteceu um imprevisto. A água que brotava da torneira saiu como uma pedra de gelo seco. Mal se via o esguicho.
Seu Gervazio, não acostumado a temperaturas como esta, deu vontade de voltar ao leito. Só não o fez em respeito às vacas. Pelas quais nutria uma alta estima.
Já era quase seis da manhã quando ele recomeçou a lida. Vida dura. Pensava com seus botões.
Naquele interim começou uma chuva fina. O que fez a temperatura abaixar mais ainda.
Como carecia de ganhar a vida, já que o leite era o seu sustento, e as vacas as suas melhores amigas, eis que Seu Gervazio arregaçou as mangas e recomeçou o trabalho.
Foi quando deu um escorregão e caiu de bruços dentro do tanque de expansão.
Ali o leite adormecido, produto do dia anterior, estava frio como aquela madrugada de inverno. Poder-se-ia dizer muito mais.
Foi quando ele foi encontrado por um vizinho que por ali passou. Felizmente em boa hora o salvou de morte certa. Seu Gervazio estava branquinho como um boneco de neve. Pálido, gélido, quase sem respirar.
Passou dez dias num hospital. Recebeu alta como um leve resfriado. Mas felizmente foi salvo.
A partir de então resolveu se mudar. Foi morar numa praia. Pertinho das ondas do mar.