Lá fora o sol brilha forte. Aqui dentro acinzenta-me a alma

Sempre fui favorável aos dias claros. Como me faz falta o brilho do sol.

Dias nublados entorpecem-me os sentimentos. Nada como um dia de sol para alegrar minhalma.

O clarume do dia, o despertar de uma manhã ensolarada, o azul do céu me faz sentir de alma lavada.

A chuva pode cair. Desde que seja de mansinho. Sem causar estragos pelo caminho. Mas, desde que ela logo ceda lugar a azulice do céu. O amarelo de um sol brilhante. O clarume de um dia me faz abrir o espaço que trago pertinho do meu peito. Naquele coração pulsante de amor.

No entanto, sem saber precisar a razão, qual o motivo que enseja, por que, me indago: já que o dia amanheceu ensolarado, por que, por vezes, trago a amargura dentro do meu peito castigado pelas emoções sentidas. Sem causa aparente. A resposta a tenho guardada dentro de mim. Ela se explica por uma palavra amara: sensibilidade.

Por qualquer razão lágrimas escorrem pelo canto dos meus olhos? Por qual motivo sinto no peito o sabor amaro da maldade? Qual seria a razão de tanto sentimento?  Meus olhos já viram demais. E ainda continuam vendo.

Nasci assim. Cresci da mesma maneira. E, uma vez mais velho, continuo a sentir o mesmo clamor de angústia quando vejo alguém sofrer. Não gostaria que fosse assim. Preferiria viver sem me angustiar por qualquer coisa. E como me aprazeria despertar depois de uma noite bem dormida. E de ter sonhado com um mundo melhor. Sem distinção de classe ou credo. Sem indivíduos dormindo ao relento. Sem crianças passando fome. Sem jovens sofrendo por causa do desemprego.

Maldita sensibilidade! Sentimento que me cavouca por dentro. Que me faz condoer dos menos afortunados. Que me torna frágil ao menor apelo. Pena que não posso passar adiante todo o amor que trago por dentro.

Gostaria que o mundo fosse mais fraterno. Que a miséria não fosse tanto com ela se mostra nos tempos atuais. Que a tal pandemia passasse como a chuva que noutro dia retorna. Fertilizando o solo. Tornando o verde mais verde ainda.

Hoje amanheceu um dia rico em claridade. O sol dança a passos largos com a azulice do céu.

No entanto, sem saber precisar a razão, por dentro de mim bate uma nostalgia imensa. Acinzenta-me a alma. Em contraste flagrante com o clarume do dia.

Sou assim. Não tenho nem preciso mudar-me o âmago.

Sou feito de pele, vísceras, e ossos frágeis. Tento mostrar rancor. No entanto só sei demonstrar amor.

Que continue assim. No tempo que me resta.

Hoje amanheceu um dia ensolarado. Um cadinho frio. Mas no decorrer do dia deve esquentar.

Apesar de amanhecer um dia com o clarume do sol, no entanto acinzenta-me a alma. Sofro, sem razão. Padeço devido à intensa emoção. Condoo-me por qualquer motivo. Maldita sensibilidade que brota dentro de mim.

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