Dorme com um barulho desses

Dizem que a noite foi feita pra dormir.

Assim fosse.

Tem gente que rola na cama, revira o travesseiro, vira de um lado pro outro, sem pregar os olhos. E acorda como se não tivesse dormido. Com olheiras profundas a passarinharem pelo canto dos olhos. Com a expressão inequívoca de como se estivesse de repente sido solto. De uma gaiola descolorida de liberdade. Como se fosse liberto de um grilhão, que há tempos lhe foi apenso na dobra da perna, depois de anos e anos sendo torturado por um crime que não cometeu.

Assim tem sido as noites indormidas do brasileiro comum. Aquele que acorda cedo. Tem de tomar várias conduções para ir ao trabalho, temeroso de ser demitido, daquela fabriqueta de fundo de quintal, que tem contas vencidas, e o pobre e infeliz patrão não sabe mais como continuar na lida.

Embora as noites sejam silenciosas, mal se escuta o pio da coruja, a gente tenta dormir e não consegue. Graças às contas que se amontoam no tampo da mesa. As prestações vencidas.  E o salário de fome que mal chega ao começo do mês entrante.

Assim tem sido a vida de uma tal dona Maria. Bem que poderia ser uma Joana qualquer. Ou um Pedro que perdeu o emprego por causa de um desassossego. Por ter tido a casa invadida por larápios que não deixaram rastros. Uns bandidinhos pés de chinelo gasto na sola que foram libertos por ordem de um juizinho sem juízo. Formado numa escolinha pagou passou. Como muitas que infelizmente existem pais afora.

Estive matutando, um dia destes, como podem se formar bons profissionais, em que área for, nestes tempos de pandemia, com o estudo à distância, on line, como dizem, sendo que nem a tabuada sabem de cor, e mal sabem distinguir entre pau de arara e aquela ave majestosa que avoa pelos ares, em bando, sob o risco de serem extintas. Extintas se escreve com x? Ou seria melhor com ç?

Aquela Dona Maria, minha personagem fictícia desta manhã de julho, dia primeiro, acorda, sem ter dormido direito, antes das cinco da manhã. Tem de fazer um cafezinho magro. O pão custa quase metade do seu salário de diarista, sem carteira assinada.

Tem de tomar três lotações para chegar ao emprego. Graças ao bom Deus ela ainda tem um. Melhor seria se fossem dois.

Assim que desce do busão, via de sempre lotado, com gente sendo cuspida da janela, e como evitar aglomeração, ela vai caminhando feericamente ao apartamento, onde a espera a patroa com cara de pouca amizade, e a repreende como se ela tivesse culpa da morosidade do transporte público, e a ameaça de demissão, dona Maria, pobre coitada, esfrega o chão, sem escovão, invocando ao bom Deus que a ela ofereça saúde de graça, já que ela não pode pagar um plano decente, e termina a faxina o melhor que ela pode, e volta pra casa já tarde da noite, faminta de fome, e ainda tem de alimentar um filho nem nem (nem trabalha muito menos estuda), a pobre dona Maria, arrimo de família, nem conheceu os pais, se prepara para dormir.

Já passa das onze da noite. Uma noite fria. Começo de inverno.

E quem diz que dona Maria consegue dormir?

Do lado de fora do seu barraco, devedora do aluguel faz quase um ano inteiro, começa um baile funk. A arruaça esta formada. Um barulho ensurdecedor percorre-lhe as narinas. Ou seriam os ouvidos?

Dona Maria passa a noite em claro. Apesar de ser uma noite escura. Enrola-se às cobertas herdadas de um parente morto.  Durante a noite sente uma mão boba puxando-lhe os pés gelados.

Ela acorda, sem ter dormido, antes das cinco. Como da vez anterior. Repete a rotina costumeira. Seu sonho era ser costureira.

Naquela, e em outras noitadas, repete-se o ciclo. Dona Maria não tem sono. Sonha com uma ilha encantada. Num fim de mundo. Ali, perdida entre coqueiros e girassóis imaginários, afinal consegue conciliar o sono.

E depois, de uma vida como esta, ainda se pode dizer. Durma-se com um barulho desses.

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