Não se lembra do que vai passar. Muito menos do que vai chegar.
A gente se lembra do acontecido. Há tempos idos. Perdidos no passado que o vento levou.
Eu me lembro da minha infância. Era criança, menino ainda, quando me mudei para aquela casa que me olha com olhos tintos de saudade. Ela faz parte do meu passado. Agora, anos depois, quando deixei a infância de lado, tornei-me um ancião não assumido, sinto-me menino ainda, brincando com meus netinhos, a mesma morada está vazia. Ela mudou de mãos. Creio, tomara, ela não se torne escombros. E, em seu lugar não construam um prédio. Alto como este que agora me encontro.
Lembro-me bem da minha infância perdida na bruma nevoenta do tempo. Daqueles anos verdes. Quando comecei a estudar naquele mesmo colégio onde hoje estuda meu primeiro neto. Depois, na intenção de continuar os estudos, precisei me apartar daquela mesma casa. E fui morar na capital do meu estado. Naquela Belo Horizonte bastante transformada. Que agora não mais me atrai.
Tenho boas lembranças de muita gente que se foi. Minhas avozinhas queridas foram algumas delas. Meus avôs da mesma forma me lembro deles. Meus pais, então, nem se fala. Eles deixaram um rastro amaro de saudade. Foram perdas irreparáveis.
Não faz tanto tempo assim que outras lembranças foram deixadas no olvido do esquecimento. Aquela bicicletinha de rodinhas amarelas foi dada de presente a um menino que creio já faleceu. Aquele finca, aquela patinete, brinquedos usados por mim menino, já não fazem parte deste mundo. Eles foram jogados num ferro velho qualquer. E se tornaram meros artefatos gastos pela memória que por vezes me atraiçoa.
Quantas boas lembranças cultivo ainda. Daquele pé de camélia rosa que na minha casa de Boa Esperança ficou indelevelmente grudado num passado ainda não sepulto. Do sobrado da dona Didi, senhoria dos meus pais. Hoje transformado em casa da cultura daquela cidade que fez parte do meu passado.
E como me lembro dos jornais impressos. Na minha cidade, que eu me lembre, existiam dois.
Neles inseria algumas crônicas de minha autoria. Eram articulistas notáveis que me faziam companhia. Perdoem-me se me esquecer de alguns deles. Hugo de Oliveira, Pedro Coimbra, já partiram rumo a algum jornal do céu. Outros ainda resistem ao tempo. E continuam por aqui mesmo. Sentindo saudades daquela páginas grafadas em preto e branco, que a toda semana leitores passavam os olhos, levavam pra casa. E as crianças daqueles saudosos anos faziam barquinhos de papel.
Infelizmente os jornais impressos, nas cidades de porte médio, perderam o espaço. Foram substituídos pela internet. Talvez nem voltem mais.
E como era bom esperar o sábado chegar, com que avidez folhear página por página, ler as manchetes principais, e, num ímpeto ver, estampado num espaço interior, aquele escrito em forma de poesia, uma crônica de vez em quando, era uma nesga de claridade que nos invadia o âmago.
Boas lembranças nos trazem os jornais impressos. Com eles, depois de lidos, nossos filhos podiam fazer aviõezinhos que avoavam bem pertinho. E serviam também para embrulhar coisas compradas em lojas a preços módicos.
Os jornais impressos perderam o espaço. Pena não podermos mais, assentados num banco de jardim, ler as notícias principais. Degustar cadinho a cadinho aquelas crônicas bem escritas. Que serviam de inspiração nos colégios. Pois considero as crônicas um caminho a ser trilhado para se tomar gosto pela leitura.
Boas lembranças me trazem os jornais impressos. Não via a hora de esperar o rapaz que entregava jornais. Quando eles não chegavam logo corria às bancas. E eles custavam bem baratinho. E tinham ainda serventia depois de neles passar os olhos.
Pena que os tempos andam mudados. Não nos permitem mais cultivar lembranças saudáveis. Agora a internet tomou conta de tudo. As redes sociais viraram mania. Não temos como não nos plugarmos dela. Elas viralizaram por todas as partes.
Ainda tenho boas lembranças dos jornais impressos. Como tenho saudade dos meus queridos pais.