“Não sei se irei sobreviver à outra manhã de inverno”

Não restam dúvidas que as manhãs de inverno são lindas com aquele despertar amarelo na linha do horizonte.

Por cima a azulice do céu. Quase não se pode ver as nuvens. A cinzentice não dá sinal no alto.

Pena que faz tanto frio. As vacas de pelo ouriçado, sonolentas, se encaminham ao curral.

Seu Zé mais uma vez acordou ao cantar do galo. Ele dorme junto às galinhas. Naquela rocinha erma. Longe da civilização.

Caso tirassem aquele bom homem dali não sei o que seria do seu futuro. Nascido naquele pedaço de terra, ali crescido, Zé da Dona Tiana amava aquele sitiozinho.

Sempre viveu da renda do campo. Ali passava dias, semanas, sem precisar ir à cidade. “Pra quê? Aqui não me falta nada. Tenho por companhia os canarinhos da terra ciscando o esterco do curral. As vacas me bastam. A saúde me tem feito companhia. Nos meus mais de setenta anos nunca foi preciso procurar o hospital. Não tenho vícios maiores que não seja amar o singelo. Nunca fui de farras. Tenho a mulher que quero na cama que escolherei”.

Sempre que lhe faço uma visita, ao cair das tardes, o encontro assentado àquele banquinho tosco. Pitando um paiero apagado.

Um sorriso moleque inunda-lhe aquela face tostada pelo sol. Nunca o vi queixando-se da vida. “Quer vida melhor do que esta”? Não tenho como discordar do meu velho amigo.

Num dia destes, creio que fazem algumas semanas, com ele me encontrei. Era um sábado de junho. Em pleno inverno em seu começo.

Parei um cadiquinho para tomarmos um cafezinho.

Seu Zé havia terminado as tarefas do dia. Percebi que alguma coisa o preocupava. Ele tossia de leve. Uma palidez preocupante tomava conta do seu semblante.

Foi quando lhe perguntei o que estava acontecendo. Se estava bem de saúde. Como estava passando naquele começo de inverno enregelante.

Seu Zé me respondeu quase monossilabicamente: “mais ou menos”. O menos me inquietou. Gostaria que fosse mais.

Proseamos por quase uma hora inteira. Gostaria de levá-lo a um hospital. A tal pandemia se alastrava cada vez mais.

Infelizmente era hora de voltar à cidade. Era um fim de tarde de sábado. O tempo conspirava contra mim.

Antes de me despedir daquele velho amigo notei que sua aparência inspirava cuidados. Em verdade imaginei que Seu Zé estivesse contaminado pela tal virose.

O que de fato se comprovou dias mais tarde.

Nem tive como comparecer ao seu sepultamento. Ele fora enterrado sem direito à velório. Mais uma vítima desta pandemia que não tem hora de terminar.

Ainda me lembro de suas derradeiras palavras. Antes da nossa despedida.

“Não sei se irei sobreviver à outra manhã de inverno.”

Pena que o amigo Zé tinha razão.

 

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