Nem tanto

Expressão assaz usada. Nestes tempos em que estamos vivendo.

Nem tanto ao mar nem tanto à terra.

Nem tanto frio muito menos calor ao destempero.

Um dia perguntei a um amigo.

Preclaro morador de uma rocinha perto da minha.

“Seu Pedro? Aonde o senhor vai a esta hora? Não seria muito cedo para começar o trabalho”?

E ele me respondeu, olhos tintos de sono: “nem tanto. Deus ajuda a quem cedo madruga”.

Pura verdade. Sem um pingo de mentirinha. A partir de então passei a acordar com as galinhas. Apesar de onde moro não ter galinheiro.

Empoleiro-me muito cedo. Antes das nove e meia já estou prontinho para tentar dormir. Já pensei em construir um poleiro para melhorar meu sono. Foi debalde. Não sei cantar como o galo faz.

Bem sei que a noite foi feita para dormir. E para amar? “Nem tanto”. Assim me respondeu Seu Pedro. Ele vive numa solidão de fazer pena. Enviuvou aos quarenta anos. Depois da morte da amada nunca mais quis outra dama ao seu lado.

Ele é um faz tudo na vida. Aos mais de setenta anos cuida sozinho da pequena propriedade. Da conta de ordenhar as vacas. Carpe mato quando ele cresce em demasia. Alimenta a vacada sempre depois da ordenha. E não tem queixas de nada. “Nem tanto”. Quando lhe perguntam sobre o preço do leite ele costuma arrepiar as orelhas.

Seu Pedro me dá lições quando eu me queixo da vida. Sempre com aquela paciência emprestada pelo Jó. Que nem sei se ele é seu amigo.

Quando me cruzo com ele, antes de voltar à cidade, paro um cadinho. Ele sorri da minha pressa costumeira. “Aonde vosmecê vai com tanto afogadilho”? Eu faço questão de parar. Nem que seja um minutinho.

“Nem tanto”. Bulo com ele. Apesar de a pressa me consumir faço de conta que nem tanto. Mal sabe ele que tenho contas a pagar na cidade. Os boletos me levam ao descabelo. Para comprovar o dito basta me olhar no espelho. Uma calva brilhante faz-me ver o couro cabeludo.

Seu Pedro mal parece a idade que tem. Já eu nem tanto. Apesar de alguns anos mais novo parece que ele é meu filho de menos idade. Nem tanto preciso mostrar minha carteira de identidade. Nasci num mês de dezembro. Precisamente no dia sete. No próximo dezembro completo setenta e dois anos. Seu Pedro nem tanto. Apesar de quase completos setenta e oito.

Deixo o amigo Pedro assentado àquela laje de pedra dura. Sempre antes das cinco e meia. As sete ele reza um Padre nosso. Veste o pijama listrado. E dorme como uma criança.

Já eu, quando o relógio assinala antes das dez, quem diz que lá vem o sono? “Nem tanto”, diria ele.

Já eu, assoberbado de problemas, a caça de soluções, deveria pensar que são poucos. Nem tanto, segundo as minhas convicções.

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