Sou de cortejar o passado.
Embora não deixe o presente de lado. Sabedor que o futuro não deve ser previsto.
Antigamente as coisas eram diferentes. Usava-se deixar os idosos assentarem-se naquele lugar a eles destinado. E ninguém se atrevia a conferir as nádegas ao assento. Pois se sabia que aquele espaço era reservado.
Que saudade daquele velho bonde. Que andava pachorrento pelos trilhos até chegar ao centro. Hoje nem mais restam trilhos. Eles foram enterrados por baixo deste asfalto que de quando em vez tapam-lhe os buracos.
Aqueles velhos tempos me ensejam saudades. Do rela do jardim. Onde moçoilas namoradeiras olhavam de soslaio os pretendentes. E se ruborizavam vermelhas ao menor olhar cobiçoso. E, quando algum de nós com elas flertavam por vezes éramos ignorados. Para noutro dia tentarmos de novo.
Ensejam-me saudades daquela mocinha pudica. Que usava anágua e por debaixo da saia rodada espartilho todo rendado. Foi por uma delas que meu pai se enamorou. Foi por este casal que eu nasci.
Ai que lembranças ternas o passado me traz. Quando éramos jovens quase não tínhamos maldade. Não cobiçávamos a mulher do próximo. Principalmente quando ele não estava tão perto.
Ai que saudade daquela terra abençoada. Chamada Brasil. Onde quase não tinha crise. Onde trabalhadores eram disputados pelas fábricas em formação. Onde quem almejasse seu lugar ao sol logo era empregado. Tempos em que a corrupção era considerada palavrão. Quando homens de bem eram maioria. E se casavam com mulheres prendadas. Que sabiam como poucas cozinhar, passar, e cuidar da prole sem precisar de ajudantes.
Aqueles anos saudosos não voltam jamais. Foram anos auspiciosos. Que me trazem boas lembranças.
Não sou tão velho assim. Que não possa me recordar de um passado remoto. Mas, no andar da carruagem, quanto mais velho fico, mais lembranças me veem à cabeça.
Hoje tudo anda mudado. Pra pior. Aquelas brincadeiras de crianças perderam lugar para o computador. As crianças de agora não sabem como era bom jogar finca. Passear de patinete. E quando a gente se desvencilhava das rodinhas daquela bicicletinha presente de natal, apesar dos tombos de galos na testa, como era apetitoso ver o galo desinchar depois de um beijo doce de nossa mãe.
Os tempos mudaram. E eu também mudei. De pai me tornei avô. Por eles me transformei.
Mas, nada me impede ter saudade daqueles idos anos. Viver de saudade não faz mal a ninguém.
Bem sei que o passado deve ser enterrado. Mas como seria bom ter meus pais de volta. Poder abraçá-los e dizer o quanto ainda os amo.
Aqueles velhos anos não mais os terei de volta. Ai que saudade dos meus vinte anos.
Se pudesse retroceder no tempo, se pudesse imaginar-me anos atrás, que tal reviver novamente, a caminhar no rela do jardim, flertar com a mesma mocinha pudica, e dizer, com os olhos, você quer ser minha namorada?