Confesso que a escuridão me incomoda. Prefiro as madrugadas ensolaradas às noites escuras. Daí o meu temor da noite. Acordo ao nascer do sol. Quando o sol não se levanta acendo a luz. Num dia como o de hoje, madrugada nevoenta, nada se pode ver a um palmo do nariz, saltei da cama, lavei o rosto, e aqui estou, de luzes acesas, a espreitar mais um dia que nasce. Agora mesmo persiste a escuridão. Ruas ainda vazias. As trevas atravessam a manhã deste novo dia. Com certeza, cerração baixa o sol racha no mais tardar ao meio dia. Assim espero. Amo o clarume das manhãs. As trevas não me inspiram. Se um dia perder a visão não sei o que será de mim. Quem sabe, neste momento fúnebre, prefiro deixar as trevas de uma cova abrigar o que restou de mim. Muito melhor a morte do que viver na escuridão. Por favor, abram o tampo do caixão e enterrem o que sobrou de minha vida. Neste momento lúgubre. Quando as trevas se apoderarem do que fui.
Tenho um amigo chegado. Com ele quase sempre me encontro quando venho da roça.
Faço questão de parar um cadinho. Claudio, uma pessoinha maravilhosa, cego de nascença, tem um humor que contagia.
Com ele aprendo quase sempre. Que viver nas trevas não é tão ruim como imaginava.
Para ele tanto faz com que cara o dia começa. Pois ele desconhece o clarume do sol. Mais se identifica com a escuridão da noite. As trevas para ele sempre foram rotina.
E como ele caminha sem percalços pelas estradas vicinais. Sempre de olhos fechados ele enxerga detalhes de onde pisa. Com aquele sorriso na face. De olhos fechados ele me reconhece pela voz.
Conta piadas com um humor contagiante. Nunca o vi contrariado. Talvez por não assistir a televisão. Mal se inteira das noticias ruins que sempre são veiculadas pela mídia.
Claudio me inspira sempre. Com ele consigo me desligar do mundo ao derredor. Ele, com aquele sorriso afável, sempre carinhoso com os amigos, um dia me disse, num momento triste por que passava.
Estava desiludido com o mundo. Apenas tristezas me cercavam. Mortes eram anunciadas a cada dia. A crise não me deixava respirar.
Foi num sábado o acontecido. Era por volta das cinco da tarde que passei pelo amigo Claudio. Ele estava caminhando. Bem perto de Ijaci.
Parei a caminhonetinha prateada. Falei em alto tom o seu nome.
Estacionei a caminhonete ao seu lado. Fiz questão de apear.
Apertei-lhe a mão efusivamente. Estava num mau momento. Meus pensamentos vagueavam soltos pela estrada. Pensava em quase tudo. Menos no nada.
Era uma tarde clara. O sol brilhava forte lá no alto. Havia dormido na minha rocinha. Foi uma noite escura povoada de pensamentos lúgubres.
Pensei em quase tudo. Na situação aflitiva por que passava o nosso país. Sonhei acordado com a crise que punha tudo em risco de insolvência. No comércio que fechavas as portas. Nas filas a porta dos bancos. No desemprego crescente. Na tristeza sem hora de terminar.
Naquele instante quando parei ao lado do amigo Claudio, naquela parada rápida, foi ele quem me disse, sempre com um sorrido cativante a iluminar-lhe o semblante: “pra mim não importa. Sempre vivi nas trevas. Se um dia o sol iluminar meus olhos novamente, nem sei como é o clarume do dia. Como também aprendi que tudo passa. A vida é feita para enfrentarmos as dificuldades. Se faz sol, se por acaso a chuva cair, pra mim dá no mesmo. Aprendi, mesmo na escuridão, a alegria, a felicidade, só depende da gente. Você não tem motivos para deixar de sorrir. Feche os olhos. E abra-os novamente. E verás que esta alternância entre a claridade e a escuridão faz parte de nós. E aprenda a viver como se fosse hoje o seu nascimento”.
Cheguei a cidade mais confortável. É verdade que a vida foi feita para desfrutarmos em intensidade plena cada momento. Mesmo que seja um dia escuro. Nevoento como o de hoje. Por certo mais tarde verá o sol brilhar novamente. É só esperar pra ver.