Que a vida lhe seja pródiga

Um dia, era outono em seu começo, quando passava pela rua, descendo a mesma hora de sempre, um dia lindo, ensolarado, fresco, antes de chegar ao consultório deparei-me com uma cena incomum.

Sem tetos dormiam debaixo de uma marquise. Eram três pessoas. Dois mais velhos e o terceiro, que mais parecia o filho, cumprimentaram-me com estas palavras ditas naquele momento: “que a vida lhe seja pródiga.”

Não tive como não agradecer embora estranhasse aquele gentil e afável bom dia, palavras que me martelaram o pensamento.

O que eles gostariam de dizer? Já que para eles, no meu entender, a vida não tem sido nada pródiga. A não ser em sofrimento, em viver naquelas condições sub-humanas, mendigando a bondade dos demais.

Pródiga, no meu entendimento, dá no mesmo que: pessoa esbanjadora, gastadora, generosa e perdulária. Da mesma maneira ser pródigo significa aquele que dilapida o patrimônio pessoal ou da família, fazendo gastos excessivos e anormais, em decorrência de perturbações mentais, ou vícios incontroláveis.

Talvez, devido a circunstâncias alheias as suas vontades aqueles pedintes tenham sido um dia opulentos, e, graças as suas vidas desregradas tenham se desfeito de tudo. E hoje vivem a margem da sociedade, dormindo nas ruas, esmolando aqui e acolá.

Não tive como não retribuir aquele gesto de cordialidade. Parei um cadinho. Não estava com pressa. Perguntei de onde vieram. E, por que circunstâncias viviam daquele jeito.

Um deles, o que me pareceu ser o mais idoso, de barbas escuras, cabelos em desalinho, respondeu-me, ainda sonolento, debaixo de um cobertor surrado.

“Viemos de trás dos montes. Não somos desta cidade. Nascemos os três, meus amigos, no distante Portugal. Para aqui imigramos há tempos passados. Por não termos a cidadania brasileira não conseguimos emprego. Vivemos ao Deus dará. Mesmo assim, de porta em porta, sentimos a hospitalidade desta terra. Nunca nos faltou nada. Deixamos a família além mar. A vida nos tem sido pródiga. Em amizade, em caridade, em benevolência. Sentimos nalma a sensibilidade brasileira. Nunca nos faltou nada. Embora pareça que passamos necessidades somos felizes a nossa maneira. Podemos sentir os rigores do frio. O frescor das manhãs nunca nos falta. Quando acordamos alguém nos oferece o café da manhã. O almoço a gente consegue num restaurante qualquer. O que nos falta? Nada. Absolutamente nada. Dai o nosso cumprimento. Que a vida lhe seja pródiga como tem sido com a gente. Somos agradecidos por termos aportado aqui. Espero que um dia o senhor nos encontre de novo.”

Despedi-me daqueles três com a alma mais leve.

Nem sempre a vida me tem sido pródiga. Aliás nunca me considerei um esbanjador.

A partir de então passei a ser um esbanjador de generosidade. Bem como de cordialidade.

Aprendi, com aquela turma de pedintes, que não custa nada ser pródigo em simpatia. De calor humano. De amizade genuína.

Gentileza atrai gentileza. Generosidade pode ser mais um fator para se conquistar mais amizades.

Que a vida lhes seja pródiga em fraternidade. Não custa nada distribuir sorrisos onde a tristeza impera.

 

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