Joãozinho, menino esperto, levado da breca, vivia numa rocinha escondida, de tão pequena que, quando a vaca deitava deixava o rabo de fora.
Assim que chegou a idade de ir à escola, uma escolinha pequenininha, situada defronte à porteira, debaixo de uma amoreira, árvore vetusta que foi cortada um dia, o menino acordou antes da hora. Estava ansioso para começar a aprender. Contava, naqueles anos, com menos de cinco. Quase adentrando aos seis.
Era mais ou menos sete da manhã, naquela segunda-feira, começo do mês de maio.
Fazia frio de fazer enregelar pinguins. A temperatura oscilava entre os cinco e seis graus centigrados. A geada embranquecia a pastaria. Pareciam salpicos de gelo em meio ao capim braquiária.
Mesmo assim Joãozinho acordou antes da hora. Dentro da merendeira, além dos cadernos, levava um lanche reforçado.
Ali chegou ávido por aprender as primeiras letras. Em casa não tinha com quem se instruir. O pai, analfabeto, a mãe, pobre dona de casa, nunca havia estudado. Por força do trabalho pesado a que tinham de se submeter.
Uma vez a escola abriu as portas lá estava o menino. De merendeira a tiracolo. Cabelos cuidadosamente penteados. Bastante crescidos, para tentar esconder as suas orelhas de abano.
Ainda se lembra de quando sofreu bullying. Justamente por causa daquele apetrecho incomum, que lhe permitia escutar melhor.
O primeiro dia foi uma negação. Assentado à última cadeira daquela salinha acanhada, onde mal se via o quadro negro, o telhado goteirava quando chovia, a professora, mal amada, mal lhe prestou atenção.
Mesmo assim o irrequieto menino insistia. Queria ir mais além de um simples sitiante.
Estudioso, aplicado, Joãozinho acalentava um sonho de ser doutor.
Passado um mês, um ano foi vencido. A duras penas. Bom que se diga.
No segundo ano da escola o meninozinho já era considerado o primeiro da turma. Só tirava notas boas. Aos sete anos já se preparava para mudar pra cidade. Na intenção de continuar os estudos. Pois ali não tinha futuro. A escolinha rural era apenas o começo de um recomeço. Rumo a voos maiores. A faculdade de medicina.
Joãozinho ainda se lembra daquele dia. Era uma sexta-feira cinzenta. Com indícios de que iria chover no decorrer do dia.
Naqueles idos anos contava com quase seis. Era considerado uma pessoinha ao mesmo tempo distante, embora fosse em verdade carente de afeto e amizade sincera.
Na escola tinha poucos amigos. A grande maioria era egressa da cidade.
E nada entendiam da vida na roça. Quase todos pensavam que o leite nasce em caixinhas de supermercados. E nada sabiam que na roça se acorda cedo. O trabalho faz as mãos calejadas. A coruja dorme em cima do cupim morto. E as maritacas se alvoroçam todas em tempo de jabuticabas maduras. E como é bonito ver canarinhos amarelinhos bulirem no esterco do curral.
Naquela sexta-feira, perdida na lembrança, um dos seus coleguinhas, um garoto mimado, que quase sempre caçoava das suas orelhas de abano, achegou-se a ele, num gesto de sabichão, e disse, com ares de entendido: “Joãozinho, aquela vaca preta e branca, que acabou de passar por aqui, dá quantos litros de leite”?
Foi ai, neste momento exato, foi esta a resposta que Joãozinho lhe deu: “quer mesmo saber? Vaca não dá leite. É preciso tirar. E produzir leite requer muito esforço e dedicação. Tem de acordar cedo. Procurar a vacada. Mesmo na escuridão. De vez em quando uma deles se perde. Acontece que vaca parida esconde a cria. Num matinho qualquer. Vaca, pra dar leite precisa ser bem alimentada. Tratar dos parasitas que infestam seu couro. Agora mesmo, nesta seca que passamos, temos de usar carrapaticidas. Além de vacinar o rebanho. Vacas são dependentes da gente como nenhum outro animal. Se as deixamos sem comida elas morrem. E viram pasto aos urubus. E como custa caro os insumos. Fazer silagem não é pra qualquer um”.
Depois desta resposta, acredito ter ficado, como aprendizado, que vaca não dá leite de graça, tem de tirar. E como se paga mal o preço do leite. Nos tempos de agora menos de dois reais.