Via de quase sempre, quando alguém morre, deixa um rastro de saudade por trás de si.
Mesmo que não seja aparentado, uma pessoa querida, ilustre desconhecido que passou pela vida e pouco viveu, geralmente deixa uma sementinha que faz brotar em nossos olhos uma gotinha de saudade, que se manifesta em forma de lágrimas, que escorrem pelo canto dos olhos.
Assim não aconteceu a um amigo.
Zé Pereira, sujeito mais rijo que tronco de amoreira, árvore nada bonita, que serve para mourão de cerca, por onde se esticam arames para demarcar divisas, por onde o gado passa quando tem fome, e a pastaria fica reduzida a uns fiapos de grama, a braquiária foi queimada a noite passada, naquele sábado que ficou nas lembranças, tristes recordações da sua infância, quando foi procurar a vaca parida num sarandi das vizinhanças, a encontrou escondida debaixo de uma moita de capim, à noite, quando se preparava para dormir, inda era cedo, quase não teve sono.
Acordava de hora em hora com uma coceira esquisita a lhe capinar o corpo inteiro.
Acendeu a luz da lamparina, era uma noite escura, nem estrelas se podiam ver no firmamento, e procurou, sem sucesso, onde estariam os irresponsáveis por aquele prurido maluco.
Como fazia calor, retirou de seu corpo cansado aquele pijama surrado, cheio de buracos feitos pelos ratos, e começou a coceira.
Foi ao banheiro, onde a luz entrava pela janela entreaberta, lá fora a lua iluminava o que restava da escuridão, e percebeu alguns calombos espalhados pelas partes baixas. Eram sinais inequívocos da presença de alguns parasitinhas minúsculos, que só deixaram rastros.
Eram calombos vermelhos, que fazia coçar ao destempero.
Na manhã seguinte, depois de uma noite mal dormida, o pobre Zé revirava-se na cama, enrolava-se nos lençóis, levanta-se, ia ao banheiro, semi desperto, e nada de encontrar os causadores de tanto infortúnio.
Ao fim do dia resolveu procura ajuda num postinho de saúde perto de sua rocinha desencantada, desprovida de quase nada, fora a saudade daqueles tempos quando o leite era valorizado, o homem do campo era considerado, quando ainda a pandemia estava fora dos seus desenganos.
Lá encontrou uma enfermeira dedicada. Era a dona Eusebia, velha comadre, vetusta senhora, em vias de se aposentar.
Como ela já o conhecia, de longa data, Zé Pereira não teve o pudor de abaixar as calças.
Fê-lo até os joelhos. Deixou a cueca encobrir-lhe a vergonha que sentia. Naquela posição esdrúxula, quando Napoleão perdeu a guerra.
Depois de muita procura, amparada na luz de um foco, naquela mesma mesa onde Zé foi operado de fimose, que dor ele sentiu, naquele velho dia, Dona Eusebia acabou por encontrar os autores da desdita.
Eram carrapatinhos minúsculos, chamados de Micuins, que se espalhavam pelas adjacências, não respeitando nem o saco, o pinto que não mais piava, e a dobra das pernas, esparramando-se pela bunda branca e desapetrechada de formosura.
Com a ajuda de uma pinça, e de uma lupa de aumento, podem dizer que eu invento, foram retirados quase todos os carrapatinhos miúdos, ainda vivos e saltitantes.
Um deles, o mais engraçadinho, ainda olhou para a carinha desconsolada e judiada do Zé Pereira e ainda sorriu. Foi esmigalhado pela unha do injuriado. Depois de amassado se tornou um ilustre personagem daquele martírio.
Dias depois, recuperado daquela coçação toda, só se viam calombos vermelhos pelas partes baixas, Zé Pereira votou ao posto de saúde a fim de agradecer a dona Eusebia. Trouxe para ela uma garrafinha de álcool. O remédio usado para se livrar do infortúnio daqueles calombos que restaram.
“Deles não restou nem a saudade.” Foi assim que se despediu da dona Eusebia. Por aquele ato de solidariedade e amor ao próximo.