Como eram bons aqueles tempos de menino. Quanto mais jovenzinhos, melhor.
Já se passam quantos anos. Conto e reconto nos dedos quase uma vida inteira.
Fazendo as contas, voltando atrás, perfazem mais de sessenta e cinco anos que a infância se foi.
Eu tinha cinco anos completos. Naquele dezembro distante. Contava com cinco anos quando aqui aportei. Não vim de navio. Pois Minas não tem mar. Boa Esperança é logo aqui pertinho.
Cidade onde nasci. E poucas vezes retornei. Pois considero Lavras o meu lugar.
Cresci naquela rua que daqui se avista pelos fundos. Naquela casa de paredes caiadas de saudades. Foi lá que descobri a infância. Os amigos de antão. Muitos deles já não existem mais.
Pra onde foram os meninos da Costa Pereira? Já fiz esta indagação antes. Pra onde foram as minhas lembranças. As tenho aqui, guardadas, dentro do peito, pertinho do coração.
Ainda me lembro daquele colégio. Do Narizinho Arrebitado. Situado logo defronte a minha casa. Era ainda um garotinho garoto. Traquinas, lourinho, espevitadinho, como meus netinhos que hoje se despediram de mim.
Bendita infância. Doces lembranças do que fui.
Naquela idade não se tinha maldade. Em nossa cabecinha oca só pensávamos em brincadeirinhas infantis.
E quando um brinquedinho quebrava? Logo acorríamos aos nossos saudosos pais. Ainda me lembro daquela bicicletinha de rodinhas amarelas. Em pouco tempo me desvencilhei delas. E daquele carrinho de rolimã? Foi meu tio que me presenteou. Era feito de uma tábua velha. A qual foi serrada ao meio. E na parte de baixo puseram um par de rodinhas retiradas de um ferro velho. Como agora me sinto. Passados mais de setentanos.
Bendita e doce infância. Carcomida pelos anos. Que, infelizmente não voltam mais.
Naqueles anos doirados não pensava no futuro. Era o presente que contava. E como era feliz e não imaginava.
Hoje, bem cedo, dois dos meus netinhos partiram. Sei que eles retornarão algum dia. Mas como vou sentir-lhes a ausência.
Agora, no apartamento do andar de baixo só restarão saudades deles. O outro, Gael, mora um cadinho distante de onde estou.
Bem sei que em poucos dias eles estarão aqui juntinhos de novo. Conto nos dedos este lapso de tempo. Serão dias intermináveis. Que custarão a passar.
Bendita infância. Sem maldades. Desprovidos de vaidades. Não se pensava em outra coisa senão brincadeirinhas de criança.
O futuro não nos importunava. Aquele momento presente em verdade era o que contava.
Bendita inocência. Bendita transparência. Aquelas alminhas puras eram anjinhos de asas inseguras.
Lá se foram os verdes anos de minha vida. Confesso uma certa nostalgia por não poder voltar atrás.
O que me consola é pensar que meus netinhos irão voltar. Pena que eu não posso voltar no tempo. Naqueles anos perdidos, não da lembrança que a saudade me traz.