Inversão de valores

Hoje, bem cedo, antes das seis e meia da manhã, uma névoa densa encobria tudo. Mal se podia ver um palmo adiante do nariz. Fazia frio. Não pude precisar quantos graus centigrados. Creio que ao derredor de dez. Se menos.

Debaixo de uma marquise acordavam algumas pessoas. Elas dormiram, pelo menos tentaram, por ali mesmo.

Foi quando pensei na inversão de valores por que passa o nosso amado país. Conquanto alguns desfrutam de conforto excessivo, moram em habitações luxuosas, imensa maioria não tem onde cair morto. Passam enormes dificuldades. Mal têm o que comer. Dormem onde podem. Sob o rigor do frio, enfrentam tempestades ao desabrigo, enfrentam filas imensas para sobreviver nesta pandemia que parece não ter fim.

Trata-se de um país maravilhoso. Não restam dúvidas. Melhor seria se o fosso social não fosse tão díspare. Tão acachapante. Nunca os ricos se tornaram tão ricos. E a pobreza aumentasse tanto.

Idolatra-se um jogador de futebol enquanto um pedreiro de mãos caludas mal tem onde morar. Valoriza-se um personagem cultuado pela mídia conquanto um pobre pai de família acorda cedo, enfrenta filas imensas para chegar ao trabalho, e seu salário de fome mal permite suprir as necessidades daquela casinha modesta, sempre de aluguel atrasado, morando num bairro de periferia.

E quando morre um pseudo-artista de causas ignoradas? Aí, neste momento insano ele se torna herói. Um ícone de pés de barro. Como tantos que deixaram de viver em circunstâncias trágicas, depois de festas mirabolescas, de terem ingerido drogas, em companhias não tanto recomendáveis.

Esta inversão de valores me faz pensar na vida. E que vida é esta? Que maltrata aqueles obscuros personagens, meros atores sem fama, notórios cidadãos que vivem a margem da sociedade. Como estes mendigos que hoje vi dormindo debaixo de uma marquise.

Idolatra-se figurões vestidos de terno e engravatados. Como se fossem exemplos a serem seguidos. No meu entender as vestes não fazem o homem. Nunca vi gente da roça ir à missa de terno e gravata. No entanto são eles que nos enchem a mesa com sua produção que nem é reconhecida por aqueles que ignoram que o leite sai da vaca. E que a mesma vaca não dá leite. É preciso tirar.

Invertem-se os valores neste país que deveria dar certo.  Confesso que já não sei mais identificar entre o certo e o errado.

Se por acaso este ou aquele jogador de futebol que percebe uma fortuna? Ou aqueloutro trabalhador comum que ganha um salário mínimo. Que dura menos que a chuva que caiu naquele verão passado.

Inverte-se a importância indevida que damos àqueles personagens que a mídia cultua como se tivessem em verdade valor. Pra mim o devido valor deve ser dado aquele professor que nos ensinou as primeiras letras. Ai que saudade da Dona Beliza! Com sua fala mansa. Com aquele carinho imenso que nos dedicava.

Invertem-se valores. Idolatra-se quem não se deve. Joga-se na lama a quem não deveria.

Até quando um pai de família trabalhador vai ficar no ostracismo? Até quando um funqueiro qualquer vai ser idolatrado como se fosse um exemplo a passar aos filhos.

Hoje passei por pessoas dormindo ao relento. Eles nem são lembrados pelas autoridades. Se morrem, quem vai se lembrar deles? Se vivem, tanto faz, como tanto fez.

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