Quantas e quantas vezes as palavras não saiam de minha boca. Emudeci.
A primeira vez, que me lembre, foi quando perdi a minha querida mãe.
A perda do meu saudoso pai era esperada. Pela gravidade do estado em que ele se encontrava.
Quando nasceu meu primeiro filho quase perdi a voz. Aquele menino, que hoje não é mais menino, pai do meu netinho Gael, nasceu naquela maternidade que já não existe mais. Naquele instante sublime mais uma vez as palavras não eclodiram de minha boca. Não sabia o que dizer. Apenas admirei a capacidade de uma mãe de gerar filhos.
A seguir, cinco anos depois, foi a vez de minha filhota Barbara. Naquele momento mais uma vez apenas tentei segurá-la nos braços. Confesso haver chorado.
E outras vezes perdi a voz. Foram momentos mágicos. Nasceram outros pedaços de mim. Partes indivisíveis de minha felicidade.
Theo, Gael, Dom, três menininhos lindos, não posso dizer que como o avô, pois podem caçoar de mim, hoje são a razão do meu viver. Nestes anos que me restam. Não sei quantos. Nem desejo saber.
Durante a minha existência, nestes setenta e um anos passados, as palavras emudeceram. Por razões variadas.
Ainda me lembro da primeira cirurgia, naqueles idos anos de um mil novecentos e setenta e sete, quando aqui cheguei, vindo de outras plagas, como tremi. Operava só. Em companhia de um enfermeiro por mim treinado. Não tinha palavras para manifestar a minha vontade de curar. As palavras eram poucas para dizer o quanto agradeci a Deus. Naquele momento de pura ansiedade.
Depois acabei me acostumando. Adquiri o hábito de adentrar ao corpo humano. Devassar as suas entranhas. E trazer novamente a saúde aquele paciente. Que confiou em minhas mãos. Mais uma vez não tinha palavras para confortar quando a morte chegava. Sem se anunciar.
Quantas vezes perdi a voz durante a minha peregrinação por este mundo díspare. Ao ver a miséria campear por este pais tão desigual. E nada podia fazer para atenuar este status quo. Apenas desejar dias melhores.
Ainda me lembro daquela vez. Quando a minha avozinha me convidou para o café. Foi naquela casa onde hoje existe um pequeno prédio. Ali existia um pé de jabuticaba. Que hoje foi ceifado há tempos idos. Naquela tarde de domingo, ao lado de minha querida mãe, quando minha saudosa avó Belica me felicitou pelo meu aniversário, mais uma vez não tive palavras para agradecer. A chance única de ter nascido naquela família admirável. Tanto pela parte de mãe quanto a de pai.
Não me lembro de quantas vezes perdi a voz. Ainda hoje prefiro escrever a ter de dizer.
A voz a tenho limitada as poucas vezes em que tive de conter a emoção. Perco a voz por motivos vários.
Agora mesmo, neste dia lindo, sol a brilhar lá no alto, nem sei o que dizer. Prefiro retratar o cotidiano nestas palavras escritas. Aqueles que já partiram. Aos que permanecem junto a mim. O melhor do meu eu.
Dizer o quê? Pra quê? Pra quem? Pra todos aqueles que preferem as palavras escritas àquelas que saem da boca num momento de raiva incontida. Das quais se arrependerão depois.