Não restam dúvidas que o tempo anda mudado.
Hoje mesmo, outono, o inverno ainda nem começou, amanheceu um friozinho de fazer se enrolar no cobertor. Uma névoa densa cobre tudo ao derredor. Ruas ainda vazias. Semana ainda por começar.
Ai que saudades dos tempos de outrora. Quando fazia frio. No entanto vivia-se com menos atropelos. Podia-se viver folgadamente com um salário mínimo. Era o bastante para vivermos com certo conforto. Em casa quase nada faltava. O carinho dos filhos aos pais, dos netos pelos avós, o respeito que ainda sentíamos pelos mais velhos. Os quais eram merecedores não só de nossas reverências bem como as nossas melhores lembranças. Daqueles tempos bons que não voltam jamais.
Hoje, nestes tempos em que estamos atravessando, em pleno século vinte e um, não se fala noutra coisa. É assalto, violência desmedida, mortes, doenças, filias intermináveis a espera de atendimento em hospitais, politiquices abjetas, corrupção desmedida, e toda a sorte de iniquidades. Neste mundão que parece ter chegado ao fim.
Do outro lado do mundo uma guerra fratricida. Entre povos vizinhos. Bombas fazem vitimas entre inocentes. Não sei até quando vamos presenciar tal vaticínio.
Aqui, neste país continental, a crise se instalou de forma definitiva. O governo perdeu o prumo e não sabe como encontrar o rumo.
Pela mídia só nos inteiramos de noticias ruins. As boas parece deixaram de existir.
Em minha rocinha, onde passo finais de semana, no próximo passado aconteceu de visitar um amigo velho.
Era perto de onde tenho uma casa à beira de uma represa. Um cenário idílico. De onde se pode ver, nas noites silenciosas, as luzes das casas do outro lado. No município de Perdões.
Foi só transpor a cerca que nos divide que me encontrei com ele. Era quase noite. Uma noite fria. Com o céu coalhado de estrelas.
Encontrei o velho Antenor se preparando para dormir. Estava acompanhado por sua esposa. A querida dona Margarida. Com quem se consorciou há tempos idos.
Tomamos uma cafezinho passado na hora. Um queijo fresquinho foi a companhia daquele lanche apetitoso.
Proseamos sobre quase tudo. Sobre o preço do leite. Sobre a produção das vacas. Inclusive sobre o momento atual.
Não deixamos de lado a tal pandemia.
Seu Antenor me falou sobre a morte de um amigo acontecida naquela semana em curso. Ele acabou não resistindo a esta virose sem cura. Ainda me lembro dele. Já havia negociado uma vaca com um dos seus filhos.
Era por volta das oito da noite quando decidi ir embora. Percebi, nos olhos sonolentos do amigo Antenor, que eles quase se fechavam.
A minha morada estava logo ali. As luzes estavam acesas.
Ainda me lembro das derradeiras palavras do amigo Antenor. Quando nos despedimos.
“Eita mundinho ruim em que estamos vivendo”.
De verdade. Não pude deixar de concordar com ele.