O dia em que Zé Gordura foi reduzido a um fiapo

Fazia frio naquele resto de outono.

Nem bem chegou o inverno.

Uma cerração densa encobria tudo ao derredor. Nada se via além daquela névoa branca.

Era cedo ainda. Por volta das cinco da manhã.

Como de rotina Zé, um tanto obeso, considerado quase um porco capado pela vizinhança, acordou de mau humor.

Era empregado de um fazendeiro que ali só aparecia nos finais de semana. Mesmo assim contrariado.

Zé, como não tinha outra formação profissional, mal sabia ler ou escrever, frequentou a escola por imposição dos pais, falecidos há anos atrás, teve de aceitar aquele emprego. Ganhava uma mixórdia. Um salário de fome. Ser retireiro não era de sua predileção. Pra ele, que mal sabia manejar a colher de pedreiro, a outra colher manejava com rara competência, daí os quilinhos a mais que angariou para si mesmo. Aos quase trinta anos atingiu um peso considerável.

A balança, quando de bom humor, acusava nada menos de duzentos quilos. Mesmo assim pelado. Sem aquela ceroula que mais parecia uma lona de cobrir mais de duas dúzias de sacos de ração pra dar às vacas. Pelas quais não tinha nenhum chamego. Embora fosse esse seu oficio do dia após dia.

Naquela manhã nevoenta fazia frio de fazer esquimó não deixar o seu iglu.

Zé Gordura acordou com uma fome de ingerir um pratão de mandioca acompanhada de duas dúzias de ovos fritos. Saiu de casa pensando em perder peso. Recomendado pelo médico, já que suas cifras de glicose e colesterol subiam às alturas.

Foi naquele sábado, quando o patrão aparecia pra ver como iam as coisas na propriedade, que Zé amanheceu bastante motivado a perder alguns quilinhos.

Ao chegar ao curral teve a primeira contrariedade do dia. Duas das melhores vacas estavam desaparecidas. Justamente aquelas de maior produtividade leiteira.

Na intenção de procurá-las foi atrás das sumidas.

Naquela matinha por detrás da invernada nada de encontrar as vacas do patrão.

Rodou por mais de cinco quilômetros. Arfava de cansaço. Um suor grudento empapava-lhe a camisa.

Já era mais ou menos oito da manhã, passava da hora da primeira ordenha, e nada de encontrar as tais vacas. Continuou a procura nas terras de um vizinho. Varou sarandis. Dobrou morros agudos.

Por volta das dez e meia, já bastante fatigado, quase desistiu da procura.

Foi quando voltou ao curral. E lá estavam as duas com o mojo repleto de leite.

Era meio dia e meia quando foi almoçar. Ai que saudades daquele prato cheio. Limitou-se a comer apenas duas fatias de melancia.

Quando o relógio marcou duas da tarde, hora em que o patrão deveria chegar, Zé, morto de sono e fome, foi à balança pra ver qual a perda do dia.  E ela, mal conselheira, olhou pra ele e sorriu. Zé havia engordado dois quilos.

Assim continuou a sua dieta. Acordava cedo, corria um cadinho, a cada manhã. Foi quando, naquele sábado, quando passei por ele, verifiquei que o obeso Zé estava quase trinta quilos a menos.

No outro sábado ele havia emagrecido quase a metade do seu peso. Agora reduzido a exatos cem quilogramas.

Foi assim que Zé continuou a sua dieta. Em menos de três meses passou a pesar menos de sessenta quilos.

Não tive como não elogiar-lhe o esforço. Ele me pareceu outra pessoa.

Foi esta a explicação que ele me deu.

“Quer mesmo saber o que me aconteceu? Cortei o açúcar. Passei a me exercitar continuamente. Sabe aquelas vacas desaparecidas? Todas as manhãs passo a procurá-las. Mesmo que elas estejam aqui pertinho. Hoje, felizmente, sou outra pessoa. Só resta um fiapo de mim. Muito mais simpático do que era”.

A partir de então passei a chamá-lo de Zé Fiapo. Do Zé Gordura nada mais resta. A não ser lembranças impuras.

 

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