“I, num é que ela morreu disso”?

Na roça as mortes são anunciadas pela presença dos urubus.

Aves agourentas, que se alimentam de restos putrefatos, essenciais no equilíbrio da natureza. Não fossem elas quem se atreveria a comer carcaças pútridas deixadas ao léu.

Já versejaram sobre os urubus: “Perdoa a mão que te apedreja. Perdoa a que não te perdoa. Perdoa a pedra que te alveja. Perdoa o preconceito e voa. Quem come o podre que ele deixa. Por ser um inútil à toa. Gari de terno preto asas, perdoa o preconceito e voa. Mestre do voo, divino réu. Anjo de cor, gari do céu. No imenso azul e branco véu. Cumpre urubu, o teu papel. Perdoa a voz que te pragueja. Quem simplesmente te caçoa. Perdoa o chute que aleija. Perdoa a estupidez e voa. Pra que todo homem veja. Que o teu agouro é coisa boa. Que todo azar é uma trapaça. Do próprio ego das pessoas. Gari de terno preto e asas. Perdoa o preconceito e voa”.

Daí a minha admiração aos urubus. Seres negros como a noite. Ou estão pousados onde a carniça dorme. Ou bicando carnes pútridas. Ou avoando na azulice do céu. Ou perto do brancume das nuvens. Se eu fosse um urubu não faria caso. Avoaria sempre, fugindo do descaso. De quem torce no nariz aos urubus.

Já escrevi um livro com esse titulo: “voo do urubu”. E a ele rendo homenagens, nesta quarta-feira, outono, dia lindo, pena que não vejo nenhum urubu a voar.

Tenho um compadre, gente simples, sem ser piegas, Seu Agenor, vizinho de cerca, que não apenas admira os urubus como os protege. Na sua rocinha singela existe um ninho de urubus. E quando nascem os filhotinhos ele logo cuida, na ausência dos pais, de levar ao ninho restos de carne sobras do almoço, algum franguinho que morreu de desgosto, para que aquelas avezinhas a principio branquinhas não sirvam de pasto a algum predador alado.

Já vi, e não sonego o que vi, Seu Agenor tirando do bico de um gavião, alado glutão, um urubuzinho recém-nascido, quase perdido, antes de aprender a voar em direção ao infinito. E aquela avezinha de penas brancas dizer obrigado. Podem pensar que é mais uma invencionice minha. Até pode ser. Mas uma mentirinha de vez em quando até que não faz mal. Alivia os males da alma. Principalmente nestes tempos difíceis que estamos atravessando.

Naquele sábado passado, ou foi num sábado dantes, quando fiz uma visitinha ao amigo Agenor, encontrei-o distante de sua morada.

Ele estava à caça de uma vaca extraviada. Ela desapareu dias antes. Estava prestes a dar cria.

É bom entender que quando uma vaca está prestes a parir ela se amoita num sarandi qualquer. E logo cedo chega ao curral lambendo a cria.

É um espetáculo grandiloquente ver aquela cena de fazer inveja a qualquer mãe do mundo. É muita ternura neste mundão desprovido de carinho nos tempos atuais.

Naquele sábado cedo, acabei por encontrar o Seu Agenor numa vala perdida nos cafundós onde Judas escondeu as botas. Era um lugar ermo. Perto de uma ribanceira danada.

Ao seu lado uma vaca morta. Nenhum urubu rondava aquela carcaça, ainda fresca.

O nome da vaca era Antonieta. Uma das melhores do curral. A pobre estava com seu bezerrinho, saltitante e choroso, ao lado da mãe.

Seu Agenor lastimava a perda. E ele amava as vacas. E não tanto os animais, tidos como racionais, que as dizem possuir.

Durante a nossa conversa, para tentar entender a causa mortis, já que a Antonieta não dava sinais de estar enferma, na tarde passada ela estava pertinho do curral, com aqueles mojos lotados de leite, apenas um indício fez o amigo Agenor lucubrar sobre o que deveria ter acontecido a sua vaca baldeira. Ela tossia. E sua temperatura subiu às alturas.

O diagnóstico se tornou evidente. A infeliz Antonieta acabou indo a óbito por causa desta doença.  Foi feito a necropsia do animal. Foi este o laudo cadavérico. Codiv-19. Entenda-se- mais uma vítima do coronavirus.

Seu Antenor, com olhos lacrimejantes, disse-me, naquele exato instante: “I, num é que ela morreu disso”!

Não sei até quando este fato carece de ser verdade. Mas eu acabei acreditando.

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