Enfim, seria mesmo o fim?

Quantas e quantas vezes pensei na finitude da vida.

Será que ela termina na morte? Ou teria outra vida depois desta que encerra?

São perguntas pra mim sem resposta. Não pretendo saber enquanto a vida não se despedir de mim.

Diuturnamente convivo com a morte. Inexorável verdade. Incontestável efeméride.

Pra onde iremos ao final da vida. Se é que existe vida após a morte por certo pra longe de aqui. Quem sabe na azulice do céu azul? Não naquela cova escura. Onde corpos sepultos logo se transformam em ossadas brancas. Restando, em pouco tempo, apenas ossos, cabelos, dentes, e nada mais que cinzas.

As mortes são consideradas acontecimentos inevitáveis. Um dia nascemos. Crescemos, viramos adultos, envelhecemos. E, quando menos se espera viramos defuntos. De nós só restarão lembranças. Muitos irão nos prantear com saudades da gente.

Considero a morte o final de um recomeço. Não vivemos tanto tempo em vão. Tudo tem a sua explicação. Por que razão criancinhas morrem antes da hora? E velhos decrépitos continuam a viver acamados, sem nenhuma perspectiva de levantar da cama, causando sofrimento a todos que os acompanham. Não sei a resposta a esta questão. Tudo na vida deveria ter explicação. Mas, infelizmente assim não acontece. Mortos vivos continuam a viver. Conquanto jovens adoecem, prematuramente partem, e deixam atrás de si uma saudade imensa. A todos que com eles conviveram.

Tenho uma pessoa amiga, experimentado ancião, ainda lúcido e pleno de razão, que um dia aqui apareceu, na intenção de fazer uma consulta, queixoso de sua enfermidade, patologia assaz conhecida da urologia.

Seu Manoel, no alto dos seus mais de oitenta anos, pareciam menos, foi a derradeira consulta do dia.

Era a sua primeira vez. Entrou passo a passo. A passos trôpegos. Usando uma bengala como apoio. Ele vinha solitário.

Notei a sua dificuldade em escutar. Precisei falar em voz alta para nos fazer entender.

Seu Manoel manifestou a sua dificuldade em urinar. Quase não dormia a noite. Urinava de hora em hora. Com enorme dificuldade.

Uma vez na sala de exame, depois de apalpar-lhe a próstata, percebi uma anormalidade. Era como se tocasse uma coisa pétrea. Típico de carcinoma da próstata.

Quase uma hora inteira se passou. Recomendei-lhe uma biópsia. Para esclarecer o diagnóstico.

Percebi, naqueles olhos baços, certo constrangimento pelo exame.  Normal, em se tratando de uma primeira vez.

Sabendo de sua vida sofrida, poucos anos lhe restavam, ele sofria de comorbidades várias, depois de trocarmos ideias, optamos por deixar como estava.

Não haviam dúvidas que a biópsia, um exame invasivo, poderia lhe causar maiores sofrimentos. E o tempo que lhe restava não seriam mais que alguns poucos anos. Se tanto.

Durante a nossa despedida notei, na face sofrida do Seu Manoel, um corguinho de lágrimas escorrendo pelo canto dos olhos.

E ainda me lembro, ele me disse assim: “doutor, esse é o final do meu fim”?

Felizmente não pude asseverar quanto tempo lhe restava. Se eu mesmo nem sei qual seria o meu…

 

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