” Pra mim cheira alegria”

Nada incomodava aquele senhor, vetusto na idade, mas pleno na mocidade.

Tudo pra ele cheirava alecrim com canela. Embora fosse um odor nauseabundo, cheirando a gambá apodrecido, morto fazia tempos.

Seu Juvenal, no alto dos seus muitos anos, embora não contasse quantos, vivia sorridente, para o trabalho pesado, apesar de aposentado há muitos anos atrás.

Nunca deixou a enxada descansar. Acordava cedo. Seu relógio de cabeceira, que fingia dormir ao seu lado, o fazia despertar nem bem o dia começava.

Seu Juvenal enviuvou antes dos quarenta anos. Sofreu nos primeiros tempos. Como não tiveram filhos, por culpa dela, se por ele teria uma penca deles, por acaso não viveram às turras. Com acontece a maioria dos casais.

Ele sim. Era feliz e bem sabia. Caso o fizessem mudar de ali aí sim. A infelicidade brotaria em seu corpo como brotariam pragas no canteiro do jardim.

Tanto no inverno frio, no calor do verão, que seja no frescor do outono, na linda primavera, aquele senhor bem disposto, pra mim era a cara escrachada da alegria.

Nunca o vi sem um sorriso a iluminar-lhe a face carcomida pelos anos. Embora fosse um sorriso um mil e um. Faltava-lhe a dentição da parte de cima. Na de baixo apenas dois dentões lhe permitiam mastigar a comida. Evitava aqueles torresmos crocantes. Apenas se alimentava de sopa ou algum caldo que não fosse muito quente.

Ainda me lembro de quando o vi pela derradeira vez. Ele, assentado àquela pedra dura, defronte à porteira de sua morada, se preparava para se recolher. Como não disse ainda Seu Juvenal dormia com as galinhas. E acordava quando a coruja velha saía de riba do cupim.

Naquela tarde de domingo, quando passei por ele, não tive como não parar um cadiquinho. Há tempos não o via. Sentia saudades dele.

Era dia das mães. Um domingo ensolarado. Minha saudosa mãezinha deveria estar aquecendo no sol do céu.

Naquele breve entrevero, quando parei pertinho do Seu Juvenal, ele mostrou-me o quanto era meu amigo. Fez questão de me presentear com dois frangos caipiras, duas dúzias de ovos vermelhos, e um queijo feito inda pouco. Fiquei constrangido em não poder retribuir tamanha gentileza. Embora considerasse que gentileza devesse atrair mais gentileza da outra parte.

Naquela tarde de domingo passei todo o final de semana na roça. Já que não podia abraçar minha querida mãe, acabei trocando a cidade pela serenidade do campo.

Passei uma noite linda. Em companhia dos pirilampos e do meu cão pastor, de nome Del Rey.

Em nossa conversa afiada, salpicada de amizade genuína, sempre que por ali passo, via de regra apressado, nunca tive tempo de parar em sua companhia agradável.

No entanto, naquele domingo de outono, com cheiro de poeira, não chovia fazia tempo, durante a nossa prosa amistosa, comentei, an passant, com Seu Juvenal, que cheiro ruim exalava aquela seca brava.

Já ele, fanho, com as narinas entupidas, a mim comentou, tentando cheirar o entorno, com este comentário que me fez pensar na vida singela que ele levava.

“Que nada! tudo pra mim não fede nem cheira. Só sinto cheiro de alegria. Mesmo não estando num bom dia”.

Cheguei à cidade com outra disposição. Agora, no meu entender, por que tanta tristeza? Deixe a tristeza de lado. E vamos continuar a viver. Não é que a alegria do Seu Juvenal me fez ver a vida com outros olhos? E, daqui pra frente, em tudo vou sentir o odor de alecrim com canela.

Mesmo nestes tempos tão conturbados.

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