Maio me ensejam lembranças

Ai que saudade ela me traz…

No próximo sete de junho ela aniversaria. Caso estivesse aqui, juntinho de mim, completaria quase um centenário.

Professora, pouco exerceu o magistério. Ao contrário de sua irmã, a querida tia Cida, que sempre é lembrada por seus alunos, quando passam por ela na rua.

Como ela deve ter sido uma boa mestra. Como ela mesma me disse amava lecionar.

Nascida na vizinha Perdões, terra de meus ancestrais, minha avozinha querida, dona Belica, morava onde hoje existe um prédio de nome Rodartino Rodarte, em honra e glória de meu avô Rodartino.

Talvez ele tenha recebido este nome por caminhar sempre, usando aquele terninho azul marinho, com risca de giz branco, pelas ruas de nossa Lavras.

Minha saudosa mãe foi ajudante do cartório do meu avô Rodartino. Mas logo se casou.

Meu pai, funcionário de uma casa bancária, foi morar noutra cidade perto. Foi na Boa Esperança de antão onde nasci.

Ali não criei raízes. Foi naquele rua, pertinho de onde estou, onde, aos cinco anos, aprendi a dar valor aos meus pais.

Foram eles que me ensinaram quase tudo que aprendi. Tenho valores herdados deles dois.

Minha querida mãe, sempre carinhosa, zelosa com nós dois, ainda me lembro de quanto ela nos amava. Tempos depois ganhei uma irmãzinha. Ela ainda vive. Seu nome é Rosinha. Sempre que posso lhe faço uma visita. Ela mora hoje noutra casa. Que não aquela da Costa Pereira.

Foi minha mãe que me ensinou as primeiras letras. E, através dela, tomei gosto pela leitura.

Ainda me lembro de sua dedicação para comigo. Nas férias de final de ano íamos todos a fazendinha de nossas tias avós. Ai que saudade da Cachoeira. Ali existiam vários pés de jabuticaba. Um rego d’água que tocava um carneiro. Um galinheiro onde colhia ovos caipiras. E um fogão a lenha que crepitava nas noites frias.

Pena que nem tudo que é bom dura para sempre. Minha mãe nos deixou aos oitenta e três anos. Levada por mim mesmo ao hospital. Fomos de braços dados. Naquele carrinho azul. Herança de meu pai.

Debaldes foram as tentativas de fazê-la continuar a vida. Ela veio a falecer nos meus braços inermes de médico. Foi o dia mais triste de mina existência.

Ainda me lembro dela. Por detrás de mim várias fotografias enfeitam a estante. Ela vestida com aquela veste branca, ao lado de uma janela, naquela casa da Rua Costa Pereira, onde viveram meus avós. A segunda, já mais idosa, entre eu e minha esposa. Na sua casa da Costa Pereira.

Sete de junho próximo ela completaria cem anos de vida. E como ficaria feliz em poder abraçá-la novamente. Estreitá-la em meus braços. E dizer o quando a amo ainda. Já que amor de filho não termina após a morte.

O dia das mães se avizinha. Cai no próximo domingo.

Hoje não tenho a quem prantear a não ser as perdas que eu tive. Já não tenho pais. Só me restam as saudades deles. Num futuro ignorado talvez eu possa me juntar a eles. Num céu lindo como o de hoje. De lá eles oram por nós. E, por certo desejam que tudo corra bem. No tempo que nos resta.

Maio me ensejam lembranças. O quanto amava meus pais. Pena que agora não posso dizer a eles.

 

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