Não restam dúvidas que os tempos andam bicudos.
Tem gente que vende a castidade para não deixar a despensa vazia.
Outros vendem balas nos semáforos. Terceiros andam a pé para não gastar combustível.
Meu amigo, Onofre, otimista de mancheia, resolveu trocar de mulher, pensando em se dar bem na vida. Ledo logro. A outra, bem mais jovem, acabou deixando o pobre coitado a ver navios num porto seco. Até hoje ele perambula a esmo pelas ruas da cidade. Cabisbaixo, passando dificuldades, depois de perder a casa, a autoestima, e os poucos cabelos que lhe restavam.
Já eu sou otimista. Acredito, piamente, que as coisas vão melhorar. A pandemia vai passar. A crise terá fim. O comércio vai se locupletar. A renda do povo brasileiro por certo vai às alturas daquele passarinho em pleno voo.
É só esperar por dias melhores que eles hão de vir. Num futuro incerto. Num dia de sol como este. No mais breve porvir.
O mesmo amigo Onofre, aquele que perdeu quase tudo, menos a esperança de um dia se dar bem, um dia me encontrei com ele na rua.
Ele vagava sem destino. Estava um tanto desatinado. Desempregado, sem onde morar, vivendo de favores, ora aqui, ora acolá.
Paramos um cadinho numa esquina de uma encruzilhada. Eu descia em direção ao consultório. Era ainda cedo. Bem antes das seis da manhã.
Encontrei-o sonolento, recém-desperto, debaixo de uma marquise. Era ali que tinha passado a noite. Desde quando se separou da segunda mulher. Que levou quase tudo que possuía. Depois deste dia malogrado pensou em dar cabo da própria vida.
Entabulamos uma conversa quase monossilábica. Apenas eu palreava. Enquanto ele ouvia.
Perguntei detalhes de sua vida. Como ele estava passando. Se havia se vacinado contra a tal virose maldita. Se por acaso passava fome. Onde se alimentava?
Foi quando ele, já quase desperto, ao me reconhecer acabou por desfilar seus queixumes.
Falou de tudo um pouco. Da vida que então levava. Das dificuldades imensas por que passava.
Há três meses dormia ao relento. Comia o que lhe davam. Tomava chuva quando ela caia. Sentia frio quando o inverno chegava.
Passamos minutos inteiros naquela prosa esticada. Era mais ou menos quase sete da manhã quando nos despedimos. Percebi, naqueles olhos tristonhos, um quê de melancolia. Temi pelo seu futuro. Já que o nosso era incerto. Mal sabia eu quanto tempo iria durar este status quo. Quanto tempo mais teríamos de enfrentar esta indecisão.
Foi quando ouvi dele estas palavras que me fizeram pensar.
“Acredito, creio eu, mesmo a mercê das dificuldades, não existe país como este. Dias melhores virão. Só depende de nós”.
Um mês depois soube notícias do velho Onofre. Ele fora enterrado em cova rasa. Na sua frase lapidar estava escrito esta inscrição: “De fato não existe país como este. Pena que as coisas não mudam. Eu bem que tentei mudar. E foi pra pior. Acreditem. Se estivesse por aqui novamente teria seguido caminho desigual. Mas não renego o país onde nasci. Aqui cresci. E não consegui identificar entre o certo e o errado. Foi mea culpa. Não culpem as pessoas erradas”.
Pensando, cá comigo mesmo, não é que Onofre tinha razão?