Nem bem o inverno chegou e um friozinho cinzento já deu as caras.
Hoje garoa. Mal se vê a linha do horizonte. Apenas a cinzentice de um novo dia se mostra.
Saí de casa a hora de costume. Para espantar o frio tomei um banho morno.
Ruas ainda vazias. Um ou outro madrugador já se encaminhava para o trabalho.
“Deus ajuda a quem cedo madruga”. Esse era o dito de um compadre meu.
Zé, apelidado de Zé da Mula, não sei por que cargas de caminhão, costuma acordar ao cantar do galo. Dorme com as galinhas. Naquele pedaço de chão para ele pura ilusão.
Ali deixou o umbigo enterrado. Nos fundos de uma moita de bananeira, juntinho a jabuticabeira, que já deu frutos, e hoje foi reduzida a uma velha árvore, sem serventia, a não ser servir de ninho a um ninho de gavião.
Zé da Mula perdeu os pais na flor da idade. Já longe da mocidade hoje conta com mais de setenta e tantos anos. Perdeu a conta de quantos são.
Ele vive da renda de uma penca de vacas baldeiras. Costuma chamá-las pelos nomes: Braúna, Azedinha, Amargurada, Chapisquinha, Desdentada. E outras ainda não batizadas.
Zé, como eu, acorda cedo. Antes das cinco já está vestido com a mesma roupa com que dormiu. Um pijama listrado, herança do avô, por baixo uma cueca remendada, e uma camiseta qual dizem ter servido a Lampião.
Toma um café requentado na trempe do fogão a lenha. Quando tem biscoito feito a semana passada ele come assim mesmo. Frio, embolorado, mofado, com jeito de coisa ruim.
Zé, por sorte dele, e dos médicos, nunca teve de procurar um hospital. Tem saúde de ferro. Mas se tomar chuva enferruja. Daí o seu medo de tempo chuvoso. Quando ele se esconde temeroso debaixo da tulha de milho. A mesma onde a porcada mora.
Zé da Mula é admirado pela vizinhança. Já teve cascavel enrolado a canela, fina como bambu usado na pescaria. Dizem, nas cercanias, que a pobre cobra olhou nos olhos dele, fez uma oração penitente, e quase caiu de repente, não fosse a mordida que Zé da Mula deu nela.
Desde este dia jamais Zé jamais passou por outros perrengues . Salvo quando teve um boi bravo no seu encalço. Correu tanto que inda hoje tem as pernas doendo. Graças a Deus apareceu uma árvore no caminho. Foi onde Zé subiu com as forças que tinha e as que não.
Hoje acordei com uma garoa fininha. Céu escuro, frio, cinzento. Tão logo cheguei ao consultório acabei me aquecendo. Esqueci a blusa lá em casa. Não tive coragem de abrir a janela.
Agora são quase sete da manhã. Ainda faz frio. Aqui dentro faz um tempinho gostoso.
Foi quando pensei no Zé da Mula. A esta hora ele deve estar com o leite tirado. Com a vacada apartada dos bezerros. Com os cochos cheios de trato. Prontinho a enfrentar a cerração. Para roçar a pastaria, dar de comer a porcada, vendo os canarinhos da terra a ciscar o esterco do curral.
Antes da dez meia já está com o almoço prontinho. Carne de panela e arroz feito na hora. As achas do fogão a lenha esquentam o ambiente. A cama arrumada já espera seu corpo cansado pra dormir novamente.
Agora, quase sete e meia, cá dentro do meu consultório, a espera do primeiro consultante, imagino o que deve estar fazendo o amigo Zé da Mula.
Lá fora faz frio. Uma cerração densa acinzenta quase tudo. Cerração baixa mais tarde o calor racha.
Dai a minha admiração aos valentes homens da roça. Pra eles não tem tempo ruim. Se piorar, melhora…