Até onde via a minha insanidade?

Por vezes me pergunto: “qual o limite entre a sanidade e a louquice”?

Acordar sempre há mesma hora, aproveitar o dia que se mostra iluminado, ter medo de noites escuras, prezar sempre a luz do dia, caminhar sempre, correr quando a ocasião enseja, aproveitar ao máximo o tempo que me resta, seriam indícios de insanidade?

Ou apenas hábitos que cultivo desde quando atingi a senioridade?

Lembro-me bem de um senhor. Era vizinho de minha casa. Aquela da Rua Costa Pereira, a que me olha pelos fundos. Foi ali que cresci. Ensaiei meus primeiros passos. Levei tombos. Levantei-me. Sempre sob olhares cuidadosos dos meus pais. Foi naquele mesmo clube que aprendi que esporte faz bem a nossa vida. A principio apenas brincava. Depois, já mais crescidinho, aprendi a jogar tênis. Esporte que idolatro até nos dias de agora. Bem mais que o futebol.

Vizinho àquela morada vivia uma família. Hoje só restam dois descendentes dos Vilela.

Ainda me lembro do Dionizio, da linda Consuelo, do Dirceu e da Augustinha que ainda vivem, e, principalmente de outro filho mais velho. Seu nome era Rubão.

Rubão vivia pelas ruas com suas tiradas geniais. Dependurado ao pescoço levava coisas tantas que nem me recordo mais. Ainda me lembro dele raspando moedas antigas no passeio fronteiriço a sua casa. Era um personagem assaz conhecido por toda cidade. Com aquele chapelão de palha de abas largas tentava se proteger do sol. Gostava de prosear com ele. Sempre que com ele me cruzava. Naquela época, faz tantos anos, meu amigo Rubão seria considerado insano. No meu conceito ele era genial.

Assim passaram pela vida outras personalidades. Muitas delas tidas como loucas. No decorrer dos tempos provou-se ser exatamente o revés.

Sempre admirei os loucos. Aqueles que deixaram, através de sua louquices, inventos que marcaram época. O que seria da gente sem a extravagância insana de um Einstein? Sem o admirável senso de humor de um Mazzaropi. Sem o lirismo poético de um gauchinho genial, o grande pequeno Mario Quintana? Da mesma maneira o que seria da gente sem os compositores clássicos, a exemplo cita-se Beethoven, Bach e tantos outros imortais.

Talvez eles todos tenham sido considerados insanos em sua época. Daí as suas passagens breves pela vida.

Até onde vai a minha insanidade? Escrever a cada dia. Acordar ao raiar da madrugada. Amar a gente singela a roça. Caminhar sempre a cada dia. Não ter ilusões de ser considerado grande. Apenas deixar escrito as minhas memórias. Cultuar o passado como se o futuro não existisse. Fazer da minha profissão um caminho a ser seguido. Não ter receio do que pensam de mim. Amar as crianças da mesma maneira que não me sinto velho. Mesmo aposentado vou continuar a trabalhar por muito tempo ainda. Reverenciar aqueles que em verdade tem valor. Amar mesmo não sendo amado. Seriam estas condutas sinais de insanidade?

Ainda bem me lembro do amigo Rubão. Uma vez entrei em seu quarto. Nas paredes inscrições notáveis estavam gravadas na parede em risca de carvão.

E elas diziam assim: “não me preocupa o que pensam de mim. A minha opinião me basta. O mundo muda com seu exemplo. Não com sua opinião. Ridícula é a capacidade humana de acreditar que a palavra desculpa faz esquecer o que já foi feito. Perguntaram ao sábio o que é perdão. É a flagrância que sai das flores quando elas são esmagadas. Não esqueça que o abraço e a punhalada nas costas a gente só recebe de quem está próximo”.

São frases como estas que me permitem pensar que a sanidade e a louquice estão mais próximas do que a gente imagina.

Se um dia me perguntarem até onde vai a minha insanidade respondo: “nem eu mesmo sei”.

 

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