Falsas idolatrias

Um dia destes, caminhando pelas ruas, na correria de sempre, deparei-me com um rapaz, porte atlético, com uma camiseta de um time de futebol, trazendo às costas o nome de um jogador.

O nome era Caçapa. Atleta assaz conhecido em nossa cidade. Por ter nascido aqui. E depois, tendo alcançado a fama, migrou para outras paragens. Creio que pouco tempo durou sua carreira pelos campos de futebol.

Era ainda cedo. Interpelei o rapazola com esta pergunta: “você por acaso considera esta pessoa um exemplo a ser seguido? Não seria melhor colocar outro nome em sua camiseta? Que tal Nietsche, ou algum filósofo qualquer. Se fosse eu inseriria por detrás de minha camisa o nome de Rubem Alves, ou de meu pai, ou de outro personagem que aqui deixou exemplo de honestidade, de solidariedade, ou de alguma outra virtude tão escassa em nossos dias”.

O rapazola seguiu adiante. Sorriu levemente. Parece que ele não se ligou ao meu comentário an passant.  Deve ter me considerado um lunático ou coisa parecida.

Ontem assisti a um jogo de futebol. Hoje, quando a televisão mostra alguma coisa deste tipo mudo de canal. Prefiro o esporte das raquetes aqueles jogos que nem sempre acabam bem. O futebol já fez parte dos meus melhores momentos. Hoje, não mais.

Confesso que aprecio ver nosso Neymar jogar. Ele faz diabruras com a bola nos pés. Pode simular lesões imaginárias. Mas que ele sabe como driblar, meter a bola nas redes, não há o que comentar.

Daí a considerá-lo um ícone está longe de assim sê-lo.

Existem outros nomes de ídolos a inserir nas camisetas, assim penso eu.

Ícone pra mim é aquele pai de família, desempregado, dos tantos que andam por aí. Que acordam cedo. Tomam a lotação entulhada. Ganham uma miséria. E, ao fim do dia trazem pra casa uma sacola quase vazia. Já que a féria do dia mal permite encher a geladeira pela metade.

Ídolos pra mim são aqueles profissionais de saúde. Que militam na área de frente. Sob o risco iminente de serem contaminados. Mesmo assim não se esquivam da labuta. Estes sim são ícones de verdade.

Ícones pra mim são aqueles mourejadores pedreiros, obreiros da construção civil, que quando terminam a obra nem são convidados à inauguração.

Os verdadeiros ídolos não ganham tanto. Moram em casas simples. Ou pagam aluguel. Eles sim são ícones de verdade. Não aqueles que vendem ilusões.

Ícones, no meu entender, vestem-se com a roupa que tem. Não são pagos a peso douro. Nem são disputados por mulheres glamorosas. Que estampam capas de revistas. E vendem seu corpo a quem pagar mais.

Ídolos de verdade não saem em jornais. A não ser em manchetes policiais.

Verdadeiros ídolos, no meu entender, não frequentam noitadas em busca de diversão fácil. Pois o tempo lhes falta.

Ícones de verdade não têm direito a  voar em primeira classe. No máximo avoam sem sair do chão. Em ônibus lotados. Em trens que nem sempre passam na hora prevista.

Ídolos, no meu entender, deixam no seu rastro páginas de livros que nos servem de inspiração. São mestres na arte de ensinar. Escritores que ensejam seguidores.

Os verdadeiros ídolos não têm pés de barro. Que não resistem às chuvas de aluvião.

Quando me encontrei com aquele moco, com a camiseta grafada com o nome de Caçapa, e ontem assisti ao jogo do PSG, pensei, cá comigo, nas falsas idolatrias.

A quem endeusar, de verdade? A este ou aqueloutro? Se fosse eu a escolher, não seria nenhum dos dois.

Prefiro pensar um pouco mais.

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