A duração do sono varia segundo a idade.
Há aqueles que dormem menos. Segundo a faixa etária.
Bebês se notabilizam pelo sono prolongado. Meus netinhos, antes das oito, já pedem a chupeta, e fecham os olhinhos para uma boa mamada.
Pena que a gente cresce. As responsabilidades passam a existir.
Já antes da maior idade, em plena mocidade, com a vida nos levando, sempre adiante, não se pode retroceder, a gente passar a dormir bem mais tarde. O sono vem devagar. Não sem antes assistir a televisão, ou ler um bom livro, e, antes das dez da noite a gente tenta ficar na cama até mais tarde. Pena que os compromissos inadiáveis nos conclamam ao trabalho. Aí a gente pula do leito, olha no espelho, lava a cara, escova os dentes, assentamos no vaso sanitário, e, em menos de cinco minutinhos breves já estamos prontinhos a sair de casa.
Já aqueles de mais idade têm enormes dificuldades para dormir.
Com razão dizem que o velho dorme pouco. Tenho uma explicação condizente ao nosso estado.
Ao passarmos de certa idade não sabemos mais quanto tempo nos resta. Daí a nossa compulsão em acordar bem cedinho. O velho costuma acordar a noite. A próstata faz com que a gente urine de hora em hora. Caso contrário a companheira que dorme ao nosso lado reclama da fedentina da urina. Que empapa os lençóis. E a cama se transforma num charco alagadiço.
Além de todos estes tormentos os de mais idade aproveitam a madrugada para desfrutar o resto de vida que lhes sobra. Eles não sabem o quanto de tempo que lhes resta. Dai o sono leve. Temos medo da noite escura. Como nos velhos tempos de meninos.
Conheço um casal, simpaticíssimo, Seu Antenor e dona Idalina, bem passados da idade, já vacinados contra a tal virose, que me contaram, um dia destes, que dormem ao cantar do galo. Antes da galinha cacarejar já saíram da cama.
O relógio de cabeceira acusa antes das cinco da manhã. Seja frio, faça calor.
Eles dormem agarradinhos. Naquela posição bem conhecida. A mulher do lado direito. De lado. Já o seu Antenor enrodilhado sobre as costas dela. E ainda dizem fazer amor.
Nos dias atuais o sono é breve. Dizem que dormir cerca de oito horas é o ideal para enfrentar novo dia com disposição para o trabalho. Mas, quem diz que a gente consegue? Depois de certa idade.
Na intenção de conseguir varar a noite sem maiores percalços ambos, Seu Antenor, e dona Idalina, recomendados pelo doutor, especialista em sono, resolveram, em comum acordão, tomar um remedinho para dormir.
Maracujá não dava conta do recado. Chá de camomila da mesma maneira não os satisfazia.
Foi então que optaram por um medicamento de tarja preta. Diziam que ele causava dependência. Mesmo assim, dada as dificuldades em conciliar o sono, acabaram comprando.
Na primeira noite foi um sucesso. Dormiram o sono dos justos.
Com o tempo passando, com as noites se transformando em dias, a dose do fármaco acabou sendo diminuída. Passaram a quebrar o comprimido ao meio. Cada um tomava a metade. Já que se consideravam as caras metades um do outro.
Foi ontem que me encontrei com eles. Era ainda cedo. Dia claro. Sol de outono.
Dona Idalina, a mais espevitada do casal, acabou por me parar na rua.
Foi quando a eles perguntei como estavam atravessando a noite. Se por acaso conseguiram dormir bem.
Foi quando ela, naquela vozinha esganiçada, acabou por me confessar: “quer saber? O tal remedinho até que nos tem feito bem. Resolvemos dividir o sono. Cada um toma a metade do comprimido. Antenor dorme até as duas da madrugada. E eu durmo o resto até o dia clarear”.
Cada um com sua mania. Mas eu não recomendo esta receita pra ninguém.