Tantas vezes pensei em que cheiro dar às estações do ano.
Primavera me cheira a uma temperatura agradável. Mistura de alecrim com canela.
Verão me lembra calor. Ressente-se no ar um odor de suor misturado a exercício.
Já o inverno, o próximo mês que adentraremos, por sua temperatura baixa, me lembra o cheiro de um agasalho mofado. Muito tempo guardado num armário, de repente posto pra fora, para nos aquecer num momento de frio.
Já o outono, linda estação, flores amarelas atapetando o solo, céu quase sempre azulado, me recorda quando era criança, cheirando a todo instante tudo que me adentrava as narinas, nem sempre entupidas quando são agora, nas madrugadas frias quando desperto para a vida.
Ainda me lembro dela. Sobre quem escrevo, neste vinte e sete de abril, perto do dia das mães, ai que saudade sinto daquela pessoinha que me deu não apenas a vida, como me permitiu crescer sempre ao seu lado, poucas vezes me afastei de sua companhia.
Ela foi uma mãe exemplar. Dedicada ao lar. Professora de poucos anos dedicado ao magistério, pois ela resolveu se casar ainda na flor da idade.
Ao meu lado tenho várias fotografias dela. Empunhando uma bandeira americana no teatro municipal de nossa cidade. O qual não tive o prazer de conhecer. Vestida num lindo vestido branco. Ao lado da janela da casa dos seus pais. Já mais velha, entre eu e minha esposa. Com um sorriso lindo. Abençoando nós dois.
Era ela quem vigiava meus passos titubeantes quando em Boa Esperança. Cidade que me viu nascer. Era ela quem me ensinou as primeiras palavras. Mãe, não me esqueço dela. Mesmo na sua ausência, sentida, doida, até o dia quando ela se despediu de mim.
Da mesma maneira que não me esqueço do seu sorriso doce. Mesmo quando ela me repreendia. Dos seus castiguinhos que duravam pouco. Quando eu, Paulinho, pedia um copo de leite, na intenção de sair daquela cadeira dura. Que ficava escondida num quarto escuro.
Ainda me lembro dela quando íamos a fazenda da Cachoeira, no município de Perdões, onde ela nasceu. La tinha um rego d’água. Que alimentava um carneiro, uma bomba que levava água até aquela casinha modesta, onde acostumávamos passar as férias, e como era bom aqueles tempos longínquos.
Minha mãe, se estivesse aqui, contaria com noventa e nove anos. Pertinho de completar o centenário.
Ainda me lembro do seu perfume. Não era aquele do outono. Muito menos o do verão. Talvez ele me lembrasse o inverno. Mais próximo da primavera.
O certo, o perfume de minha mãe me cheirava a saudade que sinto dela. Ainda hoje, tempos depois de sua partida.
Agora mesmo, já que o outono deu as caras, quando me lembro de minha mãe, ai que vontade de abraçá-la de novo.
Você tem cheiro de tudo. De saudade. De amor. De tolerância. De amizade.
Inclusive, neste dia, e em outros também, já que não posso ter você junto comigo, receba, nestas poucas linhas, o cheiro de tudo. Inclusive do amor que ainda sinto por você.
Daquele filho que sempre se recorda de nossos momentos juntos, mesmo nas adversidades que a vida nos impôs.
O cheiro de outono me entra pelas narinas. É o mesmo cheiro adocicado que partia do seu lado, quando a tinha junto a mim.