O ano corre célere. Rápido demais para um recomeço.
Há quantos anos eu nasci. Foi num dia sete de dezembro. Nos idos anos de um mil novecentos e quarenta de nove.
Há exatos setenta e um anos. Hoje, neste dia lindo, outono com sabor de verão, ainda faz calor, céu azul, sol tímido, nenhum indicio de chuva no ar, acordei pensando em como seria ter nascido em outra família, que não aquela que me gerou.
Ontem, noite se fazia, na companhia do meu primeiro neto, Theo, num instante de descuido meu o menininho traquinas manchou o sofá da sala com um risco de chocolate.
Aquela mancha escura deveria ser limpa. Pois, os seus pais chegariam à tarde de hoje. E poderiam ralhar com aquela criança linda. Creio que muito parecida ao que eu era. Nos tempos idos de uma infância perdida num emaranhado misturado a lembranças tão ternas que nem me lembro mais.
Quando a ele pedi eu passasse um paninho naquele risco escuro ele me disse, com a inocência de uma criança: “vovô. Isso não me cabe fazer. Você sim. Criança só sabe brincar. Os mais velhos devem consertar os malfeitos da gente. Nós fazemos artes sem saber as consequências. Por favor. Pegue um pano na cozinha e limpe a sujeira que eu fiz”.
Não tive como não satisfazer ao seu pedido. Com aquela carinha lambida qualquer um obedeceria às suas ordens. E foi o que eu fiz.
Foi aí que me lembrei dos tempos da minha infância. Vestido naquele mesmo uniforme verde mata. Levando uma mochila às costas. Indo em direção aquele mesmo colégio. Anos perdidos foram lembrados ontem à noite.
Ah!, se eu pudesse recomeçar de novo. Voltaria anos atrás. Retornaria a mesma casa. Que me olha pelos fundos. Como olhos tintos de saudade.
Ali vivi por anos a fio. Até me ausentar para continuar meus estudos.
Foi naquela mesma rua, por onde passo ao cair das tardes, que fiz meus primeiros amigos. Por onde andam os meninos da Costa Pereira? A maior parte deles já partiram rumo aos céus.
Foi naquele mesmo hospital que comecei minha vida profissional. Ele pouco mudou. Eu me transformei bastante.
Se eu pudesse recomeçar tudo de novo, por onde recomeçaria?
Decerto por aquela mesma rua. Por aquela mesma morada. Não tenho duvidas de quem seriam meus pais.
Tenho certeza que não escolheria outros amigos. E como os antigos me fazem falta.
Careço de nossos folguedos. Dos jogos de amarelinha, de finca, de bete. Da mesma forma não me esqueço daquele clube. Onde jogava tênis com meu saudoso pai.
Se pudesse recomeçar tudo de novo não tenho dúvidas. Seria naquela mesma rua. Que ainda era calçada de paralelepípedos.
Da mesma maneira não me olvido do jardim da infância Narizinho Arrebitado. Naquela época de antão era situado na parte baixa do velho hospital. Hoje ele não existe mais.
Foi entregue às lembranças da minha tenra infância. Que os anos não trazem mais.
Se eu pudesse começar tudo de novo, da idade do meu netinho Theo, se por acaso fizesse arte, me esconderia num armário de boca estreita. Para brincar de pique-esconde com meus saudosos pais.
Se pudesse começar tudo de novo, por certo não escolheria outros caminhos. Seriam os mesmos percorridos até agora. Ai que saudade da minha infância. Dos verdes anos que não voltam jamais.