Mais um dia a falar de saudade

Não me canso de cortejar o passado.

Ele me assedia como acontece às palavras.

Principalmente bem cedo. Quando aqui chego, manhã já desperta.

Quando olho pela janela, do meu sétimo andar, e vejo, ao longe, ao alcance dos olhos, aquela mesma rua, agora quase vazia.

É nela que ensaiei meus primeiros passos. Caminhei titubeante sob olhares complacentes dos meus pais.

Dali me afastei por alguns anos apenas. Ai que saudades da Belo Horizonte de antão. Foi onde fui em busca de minha formação profissional.

Depois retornei a minha terra querida. De onde não pretendo me afastar jamais.

Aqui constitui família. Devo a Lavras tudo que tenho. E me dou por satisfeito com aquilo que conquistei.

Daí o meu desejo imenso de sempre passar por aquela rua. Ao cair das tardes passo por ela.

Aquela casa, agora vazia, espera outros moradores. Num futuro perto ela vai se transformar em mais uma clinica. Das tantas que já existem por aquela mesma rua.

 

No entanto, agora, nesta manhã de sexta-feira, com o céu acinzentado, escuro, outono com ares de inverno, de novo volto os olhos para aquela rua. Aquela mesma casa, hoje entregue a outras mãos, espero que não se torne escombros de um passado redivivo. Ela merece outro destino. Quem sabe abrigar outra família. Feliz como foi a minha. Num passado remoto. Tão longínquo como a terra da lua.

De novo cá estou eu a falar do passado. Pra mim ele não está olvidado. Pois ele faz parte intrínseca de mim.

E ele me inspira saudades. De um tempo bom que passou. Pena que não volta jamais.

Estamos numa sexta-feira. Final de mais uma semana. Logo abril fecha os olhos. Como os meus lacrimejantes de sono.

E eu não me canso de falar em saudades. De me referir ao passado. Embora considere o presente como uma dádiva dos céus. Dizem que o futuro a Deus pertence. E quem sou eu para duvidar da presença Dele.

Mais uma manhã fria, acinzentada, nevoenta, mais tarde o sol deve brilhar novamente.

E eu, acordado há muitas horas, aqui estou, novamente, a olhar em direção àquela rua, de tantas lembranças eternas.

Não sei como me desvencilhar do passado. Ele me olha, em direção àquela mesma casa, com sabor de saudades.

E são tantas saudades que guardo dentro de mim que não consigo contar nos dedos das duas mãos quantas são elas.

 

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