É a vida…

Por vezes penso no significado do que seja vida.

Principalmente quando mortes acontecem.

Viver sempre é fato acontecido após o nascimento. Entre viver e morrer decorre às vezes um longo intervalo.  Que por vezes antecipa por alguns fatos inerentes a nossa vontade.

A verdade é que a gente nasce, passa o tempo, começamos a engatinhar, aprendemos a falar, a caminhar, depois de algumas quedas que acontecem pelo caminho, crescemos, pensamos que ficamos espertos, ledo engano.

Ontem mesmo, em companhia dos meus netinhos, vendo-os brincar, naquela azáfama que eu mesmo costumava fazer, tendo meus pais por perto, aprendi que a vida não acaba quando a gente morre. Pois, se existe alguma coisa mais linda que a infância, ainda não fui apresentado.

Foi quando descobri, naquelas brincadeirinhas graciosas, que se existe vida, após a morte, devemos aproveitar o intervalo. Pois depois de mortos só irão restar da gente lembranças. Daí a importância de cultivar a cada dia o sol que nasce. O frio que desencanta no inverno. A chuva que cai no tempo certo. Sem causar sofrimento a quem não merece.

“É a vida”. Um dia me disse um amigo meu.

E ele levava a vida em prantos e sofrimento. E que vida era aquela?

Amaro tinha a amargura por companhia. Enviuvou bem cedo. Antes de completar um ano de casado.

E como ele amava aquela mulher. Casou-se com ela sem ter experimentado o colo de outro fêmea. A partir de então nunca mais sorriu. Vivia para o trabalho. Da casa para o emprego.

Era a única diversão que tinha para si mesmo.

Foi numa manhã de outono, dia lindo, céu azul, em plena pandemia, que recebeu a notícia que fora despedido. Foi um dos dias mais tristes de sua vida.

Chegou a casa pensando em pôr fim à vida. Saiu desolado em plena madrugada.

Chovia uma chuvinha miúda. Amaro olhava pro céu sem compreender a razão de continuar vivendo.

De repente, sem entender o motivo da vida que levava, sem a mulher que tanto amava, bem perto de um viaduto, fechou os olhos, e pensou no quanto a vida perdera o sentido.

Era o momento de terminar tamanho sofrimento. Tudo para ele cheirava o desalento.

Foi quando uma alma generosa, antevendo aquela angústia, salvou-o da morte certa.

Amaro foi salvo num átimo de segundos. Foi agarrado pelo colarinho. Um segundo antes de pular daquele viaduto.

Foi quando ele balbuciou algumas palavras. Que ainda me lembro.

“A vida que tenho levado a ela prefiro a morte. E que vida é esta? Quem sabe do outro lado encontre a felicidade? Qualquer coisa seria melhor que agora”.

Foi quando pensei no exato sentido da vida. De fato. Talvez Amaro tenha razão.

Se viver é isso? Não vale a pena continuar vivendo.

 

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