Chovera durante a noite.
Pela janela se podiam ver os pingos caírem do lado de fora.
Foi uma chuvinha mansa. Nada de provocar estragos.
Foi uma chuva benfazeja. Pois os campos estavam ressequidos. A poeira incomodava a todos naquele começo de outono.
Parece que aquela tinha sido as derradeiras águas que caíram. Para só voltar ao final de ano.
Esta segunda-feira, dezenove de abril, amanheceu um dia lindo. Fresco, céu cinzento, parecia que no decorrer do dia o sol iria abrir no seu sorriso costumeiro.
Foi neste cenário, ao descer a rua, que me deparei com aquela figura simpática.
Há tempos não o via. Até pensei, devido ao tempo que não nos cruzávamos, que ele havia falecido. Era bem idoso o amigo. Creio, se não me falha a crença, que o amável Seu Zé, embora nunca conversássemos sobre idade, já contava com mais de oitenta anos.
Era um trabalhador contumaz. Fora carpinteiro por mais de cinquenta anos. Avô de muitos netos. Responsável por uma prole de não sei quantos filhos.
Morava numa casinha pequenina. Era ele só. Com sua adorável esposa.
Nesta manhã de segunda-feira, quando nos encontramos, acabei parando um cadiquinho junto a sua venerável pessoa.
Cumprimentei-o efusivamente. Devido a sua idade, junto a minha, já longe da mocidade, resolvemos manter distância. Eu, no passeio à direita. Ele quase no meio fio.
Começamos a prosa falando de amenidades. Sobre os preços em alta. Sobre politica trocamos duas dúzias de palavras ocas. Evitamos falar de religião e futebol.
Sobre as mortes que têm acontecido elas mereceram um dedo de prosa.
Ainda comentamos sobre a pandemia. Ambos não sabíamos até quando ela iria durar.
Nesta altura da conversa, quis saber o que ele ainda fazia. Eu me disse semi-aposentado. Ainda continuava a atender no consultório. E, quando a ocasião ensejava ainda operava num hospital próximo de minha casa.
Seu José, atento ao que eu falava, apenas ouvia.
E, quando eu lhe perguntei se ele já se aposentara, ele me respondeu coçando a barba nevada.
“Que nada. Bem que tenho tentado. Mas sempre que compareço aquela unidade do INSS eles vêm com uma desculpa. Falta aquilo. Deve trazer aqueloutro. Nunca tenho em mãos o que eles desejam”.
“Na sexta-feira passada, quando pensei ter trazido de tudo, uma mocinha, com ar de quem sabe tudo, me veio com mais uma exigência. O senhor só vai se aposentar quando me trouxer o atestado de óbito”.
Não me faltava mais nada. Neste país dos absurdos a gente tem de morrer para se aposentar de vez.