Sonhos são devaneios que a gente faz de conta que existem.
Sonhar é preciso. Desde que não nos afastemos da realidade.
E o que é a realidade nos dias de hoje?
Muitas vezes me pergunto.
No meu entender a realidade de agora nada mais é do que acordar sem saber o que vai ser.
Viver, até quando? Não se sabe.
Sofrer deveria fazer parte do nosso viver. Mas poucos se acostumam a esta dura realidade.
Passar necessidades é outra cruel realidade. Quantas famílias sofrem a mercê destes tempos difíceis. Despensa vazia. Uma crise sem precedentes se instala. Filas imensas se foram à porta de bancos. Uma minoria ínfima se locupleta deste estado de coisas.
Mesmo assim tenho sonhado. Sonho com tempos melhores. Com dias mais alvissareiros.
Sonho de olhos abertos. Procuro não me afastar da dura realidade.
Há tempos conheci uma família. Gente modesta, trabalhadora, que vivia numa rocinha erma.
Eram pai, uma esposa dedicada, e dois filhos menores.
Todos viviam da renda que lhes propiciava aquele palmo de terra.
Ali construíram uma casinha pequenina. Onde aquele amor pela terra floresceu.
A cada ano plantavam uma roça de milho. O pai, trabalhador, adquiriu uma penca de vacas baldeiras. E todas elas, bem alimentadas, produziam um leitinho que dava para o sustento da família.
No entanto naquele ano não choveu. Foi deflagrada uma guerra sem tréguas conta a tal pandemia. Na cidade mortes aconteciam. Pela televisão apenas noticias funestas. Mortes, desemprego, falta de dinheiro, uma crise sem precedentes instalou-se mundo inteiro.
Neste ano em curso, devido às chuvas que escasseavam, aquela família passou por muitas dificuldades. A safra de milho não vingou. A roça de milho não cresceu. A vacada emagreceu.
O leite baixou de preço.
Naquela manhã de sábado, quando passei por aquela casinha triste, deparei-me com uma cena bem própria daqueles dias.
O pai, desarvorado, com as mãos no queixo, clamava da situação aflitiva. A mãe, pobre senhora, não via a hora de se mudar pra cidade.
As duas filhas, menores, não viam a hora de voltar à escola.
Parei um cadinho para conversar com eles. Percebi, nos olhos tristes daquela família, um ar de desconsolo.
Era mais uma triste realidade que pude constatar. E nada poderia fazer para mudar o status quo.
Antes de ir embora ainda ouvi, da boquinha de uma das meninas, esta exclamação que me fez chorar: “lá se foram os nossos sonhos. Será que um dia eles vão se concretizar”?
Não tive como responder. Com certeza. Apenas olhei naqueles olhinhos tristes e desejei, de coração a larga, que sim. Um dia, por certo, tudo vai melhorar.