Via de regra os bons dias são ditos com desejo de felicidade no ar.
Principalmente num dia como o de hoje, céu claro, fresco, sol a brilhar.
Não se pode ver nenhum sinal de chuva. Parece que ela se despediu para tempos depois retornar.
Dias como estes nos ensejam bons dias. Mesmo que a alma esteja triste, acabrunhada, perdida entre nuvens cinzentas, devido a algum motivo qualquer.
Eu, quase sempre, ao descer pela rua, em direção ao meu consultório, procuro saudar os passantes com amistosos cumprimentos. Bom dia a você. Que o seu dia seja coroado de alegria. Que a felicidade irradie dentro de seu coração. Pois qualquer dia que seja deve ser visto com alegria. Mesmo que a tristeza impere dentro de si.
E como tem sido difícil encontrar pessoas alegres nestes tempos de pandemia. Por todas as partes, por onde quer que andemos, só vemos pessoas amarguradas, correndo apressadas, sem tempo de dizer um bom dia sequer.
Bem sei que cada um pensa a sua maneira. Entendo a postura de cada um.
Mas, por que não pararmos um cadinho, olhar nos olhos de quem atravessa o nosso caminho, a ele desejar um bom dia. Mesmo que as coisas não andem tão bem.
Assim tenho feito. Mesmo que o sujeito com quem me cruzo nas ruas não tenha tempo, muito menos deseje, que meu dia corra bem.
Hoje, bem cedo, antes das sete, bem antes, naquela subidinha empinada, recolhido a porta de um prédio, pra se proteger do frio, deparei-me com uma pessoa, embrulhada num grosso cobertor.
Era um pedinte recém-desperto. Ele me olhou com olhos envergonhados. Ainda marejados de sono. Ele pareceu-me ter dormido ali.
Devido à pressa da hora, era tarde, na minha rotina diária, quase não tive tempo de desejar-lhe um bom dia. Mesmo assim fi-lo.
Ele me olhou cabisbaixo. Quase não teve tempo de me desejar outro bom dia.
Parei um cadinho. Depositei-lhe na mão entreaberta, olhos lacrimejantes de sono, duas moedas de um real. Era o que tinha a oferecer.
Aquele pedinte, morador de rua, olhou-me com olhos de candura.
E me desejou, quase num murmúrio, outro bom dia.
Agora, na minha sala do sétimo andar, com o prédio ainda vazio, com o sol adentrando pela minha janela, num dia lindo como este, como não desejar bons dias a esmo.
Mesmo que do outro lado não correspondam ao nosso desejo.
Aquele bom dia, retribuído pelo pedinte, pra mim tem o sabor de tristeza.