Tem gente que se lastima por qualquer coisa.
Se chove além da conta é hora de se lastimar. Se a seca prepondera o grito é o mesmo.
Se o tempo não colabora da mesma forma o sujeito chora. E se a mulher se queixa da falta de dinheiro, ele vem com esta desculpinha esfarrapada: “também, você não trabalha. E fica em casa cuidando dos filhos e da faxina. E quando eu chego do trabalho você nem se toca. Me recebe descabelada, com cara de quem dormiu de toca. E vira o corpo pro outro lado quando desejo fazer amor”.
Já pra ele, Seu Antenor, caboclo de tez tostada pelo sol, mãos caludas, moreno tinto de suor, acostumado a carpir mato alto, enxadachim de primeira, um faz de tudo na roça, tanto faz, tanto se desfez, se chove muito, ou se a chuva escasseia, pra ele é a mesma coisa.
Seu Antenor sempre tem um sorriso maroto a mostrar a sua dentição imperfeita. Faltam-lhe alguns dentes da frente, que ele arremedeia com uma prótese mal feita, que dorme ao seu lado.
Seu Antenor acorda ao cantar do galo. Antes das cinco já se pôs de pé.
As seis e meia já está com o leite tirado. Com as vacas alimentadas. Com o porco capado prontinho ao abate.
Ele não renega serviço muito menos uma boa prosa.
Esturdia passei por ele. Era hora do almoço. Antes das dez meia.
Parei um cadiquinho. Estava com pressa. Teria de voltar à cidade, pois algumas atribuições me esperavam.
Naquele entrevero, bem antes do meu almoço, Seu Antenor interpelou-me com aquele sorrisinho um mil e um.
“Por que tanta pressa? Sei que o senhor já está aposentado. Desfrute comigo um cafezinho feito agora a pouquinho”.
Não tive como recusar-lhe o convite. Pra ele seria uma desfeita danada. Já que somos compadres. Desde há muito tempo.
Estacionei a caminhonetinha prateada à beira da estrada. Fazia calor. Embora fosse começo de outono.
Foi ele mesmo quem disse: “como vão as coisas? Ainda no trabalho? Não é hora de descansar”?
Eu retruquei, mansamente, que estava a caminho da cidade a fim de mais um dia de labuta. Era uma segunda-feira, dia normal, para quem trabalha duro.
Seu Antenor, mascando um paiero apagado, já que deixou de pitar faz muito tempo, puxou assunto sobre a tal pandemia.
“E como anda, na cidade, esta doença que tem durado mais que o previsto? Será que ela vai continuar por muito tempo”?
Fiz-me de desentendido. Expliquei-lhe que não sabia até quando. Torço para que ela não dure mais que a florada dos ipês.
Comentamos, an passant, sobre o tempo. Falamos sobre a chuva que deixou de cair. Sobre a crise não deixamos de fora. Sobre as mortes que tem acontecido, da mesma maneira lastimamos.
Antes da despedida, ouvi da boca do amigo de longa data, esta frase que retrato agora: “quer mesmo saber? Pra mim tanto faz. Como tanto fez. O que me importa é a saúde das minhas vacas. O preço do leite é a minha preocupação do momento. Já me vacinei com as duas doses. Tenho saúde a dar aos outros. O que anda acontecendo, na cidade, compete às autoridades. E bem sei que elas estão com os cofres cheios. E nem se preocupam com a gente”.
E não é que o compadre Antenor está coberto de razão?
Tempo ruim? Pra mim também tem não.