As carências abundam nestes tempos difíceis.
Precisamos de saúde. Nestes tempos onde a doença predomina.
Carecemos de felicidade. Quanto a tristeza nos domina.
Precisamos de ternura. Quando a violência prepondera.
Carecemos de quase tudo. E como faz falta a solidariedade.
Estamos vivenciando tempos de pandemia. Já dura mais de um ano tal suplício.
Quantas pessoas padecem de dificuldades. Quantos de nós perambulam pelas ruas em busca de tudo um pouco.
Mas para ele, humilde agricultor, mestre no manejo da enxada, carpir mato é com ele mesmo, Seu Joaquim, personagem da minha crônica de hoje, podem crer que ele existe, entre tantos sujeitos que por ai vivem, na simplicidade de suas vidinhas descomplicadas.
Conheci-o há tempos idos. É meu vizinho de pasto. Ele mora num pedaço de chão, tão pequenino, que quando uma vaca deita, acaba deixando o rabo de fora.
Neste sábado que passou fiz-lhe uma visita. Há tempos não o via.
Encontrei-o, já era quase hora do almoço, carpindo mato em volta de sua casa.
Seu Joaquim, com a barba nevada, cabelos tintos de neve, me saudou como um velho amigo.
Quando tentei dar-lhe um abraço ele me recomendou cautela.
“Compadre. Não vê que estamos em tempos de pandemia? Deve manter distância. Embora acredito que você já deve ter sido vacinado. Como eu que já recebi a espetadinha no meu braço”.
Proseamos por cerca de uma hora inteira. Falamos sobre o tempo seco. Comentamos sobre banalidades.
Seu Joaquim, bem vivido, experimentado nas lidas da vida, acabou me dando uma lição de como se comportar frente as adversidades.
Para ele tudo são flores. Embora existam os espinhos. Sorrir pra ela faz parte. Chorar é capaz. Quando a ocasião enseja.
Naquele dia de sábado encontrei-o solitário. Percebi, naquele homem sozinho, um certo ar de tristeza. Pelo canto dos seus olhos descobri um riachozinho de lágrimas incontidas.
Embora ele dissesse que não. Que seria apenas um logro meu.
Antes de nos despedirmos, já era tarde, precisava voltar pra cidade, perguntei-lhe o que lhe faltava. Se tinha o que comer. Se, por acaso, alguma doença o importunava.
Seu Joaquim, não conseguindo segurar as lágrimas, respondeu-me, com um leve aperto de mão: “olha, meu amigo. Tenho tudo que precisava. Estas mãos calejadas pelo trabalho duro. Estas vistas que enxergam de tudo. A companhia das minhas vacas baldeiras. A roça de milho que deu boa safra. As minhas galinhas poedeiras. O canto do sabiá que na jabuticabeira mora. A saúde que ainda me bafeja. De vez em quando minha família me faz uma visitinha. É o bastante para ser feliz. Com o pouco que me resta”.
Antes de ir embora, ainda tive a ousadia de fazer-lhe outra pergunta: “o senhor precisa de mais uma coisa”?
Foi quando ele me respondeu: “o quê? Tenho tudo que necessito. Não preciso de mais nada. Simplesmente continuar a viver. Desde que a saúde não me abandone”.