Pra ela tudo era bonito

Que dia lindo amanheceu no dia de hoje.

Bem próprio de outono.

Céu azul, sol tímido a brilhar na linha do horizonte, nenhuminha nuvem a empanar o brilho do sol.

Acordei a hora de sempre. Liguei a televisão por alguns momentos. Só se falava naquela tragédia que enlutou país inteiro. Na morte daquela criança, inocente, que foi morta pelo padrasto, acobertada pela própria mãe.

Apenas noticias ruins são veiculadas pela mídia sedenta de fatos cruéis. O brilho do sol, a azulice do céu, passam despercebidas pela maioria. E como faz falta um pouco de poesia nos tempos de agora. Flores então nem são lembradas pela beleza. Abraços, achego, nem de longe são percebidos. O amor anda ausente. A humanidade ressente-se da sua presença. Apenas e tão somente mortes, violência, desemprego, crise, são fatos incontestavelmente veiculados. Até parece que estamos vivendo o final dos tempos.

Pra mim, nesta altura da minha existência, não desaprendi a olhar a beleza das coisas. Sinto o murmúrio de um riacho. Vejo, extasiado, o desabrochar de uma flor.

Em meio a tal pandemia não creio que ela vai durar para sempre. Um dia ela vai ser lembrada como um fato corriqueiro. Que passou como o vento que passa, despetalando folhas, levando no seu rastro um sinal de que tudo vale a pena, desde que tenhamos coragem para enfrentar as adversidades.

Elas fazem parte do nosso viver.

Conheço uma pessoinha linda. Dona Mariazinha, no alto dos seus muitos anos, já enfrentou procelas e tempestades. Já perdeu filhos. Enterrou marido. E hoje só resta ela para contar a sua história.

Nunca a vi de cara amarrada. Sorridente, dentro dela irradia carinho, simpatia, e felicidade.

Sempre que passo pela sua casa a encontro assentada a uma cadeira de espaldar alto.

É uma casa avarandada. Ela sorri a me ver passar.

Foi num dia de sábado, creio que há um mês inteiro, resolvi entrar.

O portão estava aberto. Era um dia lindo como o de hoje.

Dona Mariazinha, solitária, naquela manhã de sábado, lia um livro de páginas abertas. Ela não carecia de óculos. Enxergava como ninguém.

Saudei-a com um bom dia amistoso. Ela me correspondeu como um cordial bom dia.

No seu jardim flores multicores se deixavam ver. Ela própria cuidava delas.

No meio da nossa conversa, já passava das dez da manhã, o assunto versou sobre fatos corriqueiros. Proseamos sobre a pandemia. Sobre as mortes que se sucedem. Sobre a crueldade que tem assolado o país.

Inclusive sobre o desamor comentamos an passant.

Antes de nos despedirmos, depois de um cafezinho regado a pão de queijo e broa de fubá, ainda me lembrei de comentar sobre a crise por que estamos atravessando. Sobre o momento trágico que o país atravessa. Sobre o desamor.

Foi quando ela, sorrindo, me disse: “olha pro céu. Veja como o sol brilha. E tem coisa mais linda como a azulice do céu azul? Pra mim tudo é bonito. Depende de como encaramos a vida. Se ela se torna cinzenta por que não tintá-la de azul?  Se o momento é funesto, por que não pensarmos que tudo vai bem? Essa é a minha postura frente às adversidades. Daí a minha felicidade. Que procuro sempre passá-la adiante”.

Desde então passei a ver tudo em azul. Mesmo que o dia seja cinzento. Pra mim, da mesma forma, tento pensar que tudo vai melhorar.

 

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