Na fila da amargura

Era bem cedo quando saí de casa.

Precisava ir ao banco para sacar uma quantia a fim de pagar alguns compromissos.

Era uma importância razoável. Minha esposa teve de ir comigo.

Naquela hora temprana, antes das seis, dia frio, céu cinzento, uma fila imensa se formava a porta de um banco.

Outono já tinha inicio. Nada de sol naquela quinta-feira, madrugadora.

Depois de sacar o dinheiro, subindo pelo mesmo passeio, antes de chegar a uma farmácia, fui chamado pelo nome, por uma vozinha desconhecida.

“Doutor, quanto tempo não o vejo. Por onde anda o senhor?”

Estaquei num átimo. Parei um cadinho para identificar de onde havia vindo a voz.

Era um senhor, velho conhecido, de quando andava de ônibus, a fim de atender numa unidade de saúde da zona norte.

Seu Manuel, se não me falta a memória, era este o seu nome, desconhecia-lhe o sobrenome, saudou-me com aquele vozeirão danado.

Em verdade há tempos não o via. Via de regra proseamos durante a curta viagem.

Naquela manhã de outono, fria, de enregelar os ossos, não tive como não parar um cadinho. Tinha tempo. Era cedo. O relógio da igreja marcava menos de seis e meia.

Seu Manoel saudou-me efusivamente. Demonstrou, naquele sorriso aberto, uma saudade imensa do velho amigo. Companheiro de jornada.

Durante a nossa conversa pude perceber o quando ele estava amargurado.

Estava a espera do auxilio emergencial. Já que, aos mais de setenta anos, não conseguira a tão sonhada aposentadoria.

Vivia de bicos. Ora carpia lotes. Ora lavava carros. Na maior parte das vezes ficava em casa. Morava de aluguel, as contas se amontoavam no tampo da mesa. A geladeira, sempre vazia, nada mostrava nas prateleiras.

Durante grande parte da sua existência foi um trabalhador contumaz.

Foi de tudo um pouco. Padeiro, nas horas de ócio. Pedreiro de meia colher.

Aos sessenta anos adoeceu. Não teve mais como trabalhar.

A partir de então, solteiro que sempre foi, atravessou momentos difíceis. Nada tinha o que comer. Faltava-lhe de tudo um pouco. Menos alegria de viver.

Nesta manhã de outono, fria, cinzenta, reencontrei o amigo Manuel. Ele ali estava há muitas horas. A espera de o banco abrir.

Atrás dele uma fila imensa dobrava quarteirão. Eram pessoas que, como ele, esperavam mais uma benesse do governo. Míseros menos de duzentos reais. Quantia incapaz de fazer alguém sobreviver.

Aquela fila de amargurados se formara desde a madrugada. Era interminável.

Foi quando me perguntei, a mim mesmo, por quanto tempo mais iremos assistir, neste meio de ano, véspera de inverno, a tantas pessoas, infelizes, mendigarem migalhas, neste país, ao mesmo tempo tão rico, e tão pobre.

Aquela fila da amargura em pouco tempo se desfez. Todos voltaram pra casa. A espera de dias melhores. Quem sabe quando? Eu não sei dizer.

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