O catador de latinhas

Hão de concordar comigo que a situação não anda nada fácil.

Tem gente que vende o sapato para andar descalço. E outros que rifam a esposa pensando em se dar bem na vida; ledo engano.

Quando um sortudo recebe a noticia que foi o ganhador, e aparece procurando a prenda, o maridão não entrega a encomenda. Sorte de quem? Daquele que pensou ser o sabe tudo. Tarde demais. Lá se vai a boa vida. E aquela mulher, de olhos cor de mel, passa a viver feliz ao lado daquele que a levou embora. Numa tarde úmida de um outono que se foi nas asas do tempo.

De novo anunciaram mais uma ajuda nestes tempos bicudos. Como se a importância de menos de duzentos reais fosse o bastante para comprar mantimentos, pagar a conta de luz, comprar um botijão de gás, pagar o aluguel de um barraco dependurado naquele morro das ilusões perdidas.

Assim encontrei um rapaz, neste começo de abril, ainda cedo, antes das sete horas, escarafunchando um saco de lixo, procurando entre os detritos alguma coisa que o pudesse ajudar a superar as dificuldades prementes nestes tempos de pandemia.

José era o seu nome. Soube pela boca dele mesmo.

Como ainda tinha tempo, para chegar ao consultório, procurei saber qual a sua profissão.

José me respondeu, sem tirar a mão do saco escuro, que era operário numa fabriqueta de fundo de quintal.

Há coisa de um mês, se tanto, se viu desempregado.

De repente, com três filhos a tratar, com a esposa desempregada, como ele, passaram fome. E foi despejado do barraco onde moravam, por falta de dinheiro para pagar o aluguel.

José sempre foi um trabalhador exemplar.

Interrompeu os estudos quase em tempo de se graduar em engenharia. Foram tempos difíceis aqueles.

Com apenas vinte anos resolveu se casar. Era uma jovenzinha linda. Seu primeiro e único amor.

Ainda se lembra daqueles verdes anos. Até que eram felizes, e não sabiam.

Depois vieram os filhos. Dois meninos e uma meninazinha.

Sem ter onde morar, sem renda fixa, ele fazia bicos, ela cuidava da casinha tosca, começou a pandemia.

Desempregado, sem formação profissional, José não sabia como tratar da sua família.

Roubar, não sabia. Assaltar, nem de longe pensava.

Era um sujeito direito. Nascido em berço humilde mas de boa formação.

Nesta manhã de quarta-feira, ao me deparar com ele, catando latinhas num saco de lixo, nesta nossa breve conversa, fui-me inteirando, cadinho a cadinho, da situação aflitiva por que passam muitos de nós.

Causa-me pena ver tanta gente, como José, catando latinhas, sem emprego, perambulando pelas ruas em busca de seu ganha pão.

Ele me pareceu gente boa. E tanta gente nadando em dinheiro, ocupando cargos importantes país afora. Sem o devido merecimento.

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