Minha pequena jornalista

Daqui a posso ver, andar acima de onde moro.

Deve estar dormindo a esta hora bem cedo.

Ainda me lembro de quando ela nos deixava, lágrimas contidas no canto dos olhos, prestes a tomar o busão, em direção ao Rio de Janeiro.

Era um sofrimento enorme. Mas ela, voluntariosa, cabecinha empinada, nos deixava certa de que este era o seu destino. E a gente, pais amantíssimos, pouco podíamos fazer para impedir seu voozinho solo.

De vez em quando ela aparecia. Com a malinha às costas, trazendo junto toda a saudade que sentíamos dela.

Meninazinha pequenina, mas de grande estatura moral.

Ser atriz era outro sonho que ela acalentava.

Um dia, em visita à cidade maravilhosa, assistimos a uma peça onde ela era a protagonista principal. Confesso que eu não esperava tanta capacidade. E elazinha dançava, recitava versos, e encantava a plateia com seu desempenho de profissional.

E nós, extasiados, mal contínhamos a nossa emoção.

E o jornalismo passou a ser a sua vocação.

E como ela escreve bem. Puxou ao pai. Creio eu.

Num dos meus livros, Risos e Prantos, ela assim inseriu na sua primeira orelha: “parafraseando meu pai: “quem sou eu, com meus versos insossos, a fazer frente ao lirismo de sua prosa”? Escrever nunca foi tarefa das mais fáceis, ainda mais quando se trata de meu pai. Médico, escritor, e agora metido à atleta. Não me atreveria nunca a comparar seus textos com os meus. Paulo Expedito Rodarte de Abreu, meu pai, é pródigo em transformar virtuosismo em virtude. Tudo, aos seus olhos, chama a atenção: o convívio com o povo, com a vida campestre, com o simples sibilar dos pássaros, tudo lhe é motivo de inspiração. Seus pensamentos tomam forma e suas histórias ganham um colorido todo especial, num estilo que só ele tem. Um homem muito a frente do seu tempo. Enxerga prosa e por que não poesia, onde se podem ver desgosto, descrença, angústia e sofreguidão. Visionário, sonha com um mundo diferente, quer e precisa ser ouvido, sabe das coisas como ninguém. De talento nato, vibra a cada nova ideia. Tem ideais fortes e os defende com unhas e dentes. Fala o que pensa. Não tem papas na língua. Goza de uma inspiração inesgotável como se houvesse encontrado a fonte inesgotável para a cabeça, corpo e coração. Exemplo de competência profissional, sagacidade, determinação e sensibilidade. Há anos faz das crônicas a sua válvula de escape. Autor de sete livros, dois deles em coautoria, este talvez seja o mais fascinante de todos. Escrever, para o meu pai, é uma necessidade, é o que o faz viver. Doença, que ele mesmo, como médico, competente que é, é capaz de curar. Suas crônicas dizem mais do que simples frases soltas ao léu. Cada palavra, cada frase, é um grito que ecoa pelos ares. Faz dos seus escritos ensinamentos. Pois, como ele mesmo diz: “a vida é aquilo que você faz dela. Faça bem feito. E com jeito. Me orgulho muito por ser ele meu pai. Meu exemplo”.

Minha pequena jornalista hoje é mãe de dois lindos filhos. Theo e Dom são não apenas netos. E sim a continuação de mim.

Hoje amanheceu cinco de abril. Minha pequena jornalista aniversaria no dia de hoje.

Não lhe conto os anos. E sim o quanto a amo.

Receba, minha filha querida, todo o meu carinho. Não irei lhe dar presentes. Você tem tudo. Apenas retrato, neste escrito, nascido nesta manhã de outono, o quanto lhe quero bem.

Você é um pedacinho de mim.

Desejo a você, minha pequena jornalista, tudo de melhor em sua vida.              Que não perca nunca esta graciosidade, sua generosidade, sua pureza d’alma, que sempre lhe brotou desde quando Deus a enviou pra mim.

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