Laika Rosa, a enjeitada

Quando a recebi de presente, creio que há mais de cinco anos, se tanto, foi por um singelo motivo: a danadinha da Border Collie tinha o costume nefasto de comer galinhas.

Ela chegou a minha casa de cabecinha baixa. Parecia envergonhada. Ela se mostrou amistosa desde quando a conheci.

Mansinha, tinta de branco de negro, parecia a companhia ideal ao meu outro amiguinho, o Pirunguinha, um amor de cachorro, que morava numa casa beira lago, na represa de Camargos.

Levei-a, assim que me surgiu a oportunidade, na minha caminhonetinha prateada, àquele lugar paradisíaco.

E ela foi calminha no banco de trás. Sem saber o destino que a esperava.

Quando ali chegamos, era um sábado, véspera de um domingo (parece uma redundância tal dito), Pirunguinha a recebeu entre latidos e carícias. Tentaram se acasalar. Mas, naquele dia Laika não estava propicia a fazer amor.

Tempos se passaram. Tudo foi bem no começo.

Laika vivia livre como um pássaro. Ela e meu outro amigo, Pirunguinha, corriam livres pela borda da represa. O canil, ali construído, ficava vazio.

Em pouco tempo Laika mostrou suas garras afiadas. E seu antigo vicio acabou aparecendo.

Começaram a aparecer galinhas mortas pelas vizinhanças. E as reclamações se sucedendo.

Não tive como não mudar Laika de ares.

Num outro sábado decidi, por minha conta e risco, mudar a sua residência.

Em outra represa, não tão perto, morava outro amigo de quatro patas. De outra raça.

Seu nome é Del Rey. Ele vivia solitário num outro canil. Por não ter companhia o desejo de liberdade o atazanava. Era ainda um menino. Quase uma criança de quatro patas.

Assim que a safadinha da Laika chegou foi recebida com as mesmas juras de amor que o Pirunguinha a acolheu.

Mesmo assim ela continuava arredia. Não correspondendo às caricias de amor de outro macho.

Ela se mostrava infeliz. Percebi, nos seus olhinhos tristonhos, um certo ar de infelicidade.

Quando ali estava soltava o casal.  Ambos corriam livres atrás de mim.

Quase um ano se passou. Veio o outono. As chuvas serenaram.

Preocupava-me a situação daqueles dois.

Sempre perguntava, pelo zap, como estaria o jovem casal.

Do outro lado alguém me respondia que tudo estava bem.

Laika continuava presa no canil. Del Rey parecia feliz com a nova companheira.

Num belo dia tudo mudou.

Laika, num dia de chuva copiosa, acabou escafedendo-se de sua moradia. Nada lhe faltava. Tinha ração a toda hora e água fresca a cada dia.

Na semana passada fui informado que mais uma vez Laika desapareceu. Foi encontrada longe de sua casinha tosca. Contrariada foi levada de volta. Sob os latidos alegres do meu fiel Del Rey.

Ontem mesmo aconteceu o previsível imprevisto. Laika sumiu num átimo. Até hoje não foi encontrada.

Já que ela preza a liberdade, não se conforma em viver confinada, talvez seja melhor jamais encontrar minha querida amiga.

Que ela seja feliz. Longe de tudo e de mim.

Foi esta a escolha da pobre e enjeitada Laika Rosa. Que ela seja feliz. Onde deseja. Tenho certeza de que vai ser melhor pra nós dois.

 

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